Vou reproduzir aqui uma história deliciosa que o saudoso Plínio Marcos contou em entrevista ao programa Cena Aberta, recentemente reprisado na TV Câmara.
Segundo Plínio, Bibi Ferreira teria lhe telefonado solicitando que fosse visitar seu pai, o grande ator Procópio Ferreira, que agonizava no hospital. O velho mestre teria um assunto urgente para tratar com ele. Boêmio, Plínio Marcos deu um jeito na portaria de fazer a visita à noite. Lá chegando, ele se deparou com um Procópio fraco, fragilizado, deitado de bruços. Ao vê-lo, Procópio abriu um largo sorriso e começou a falar:
- Plínio, você tem que escrever uma peça pra mim! Não podemos adiar isso, você tem de escrever! Eu quero que você escreva um espetáculo sobre Catulo da Paixão Cearense...
E seguiu animadíssimo, falando alto e com um entusiasmo juvenil que deixou Plínio estupefato. Os outros pacientes do quarto começaram a prestar atenção naquela cena, digamos, pitoresca. Procópio declamava, cantava, atuava, fazia misérias deitado naquele leito hospitalar...
As pessoas foram se aproximando, se espremendo... Em dado momento, Plínio se deu conta de que havia cerca de trinta pessoas dentro do quarto, admirando o talento daquele ator extraordinário. Procópio Ferreira transformou a noite de dor e sofrimento, que é praxe em um hospital, em algo lírico e transformador. Médicos, enfermeiros e pacientes esqueceram-se por um minuto da rotina estressante que viviam e curtiram uma noite do melhor teatro brasileiro.
Procópio praticamente encenou a peça que queria que Plínio colocasse no papel. Estava tudo pronto, as idéias organizadas e ordenadas. Só faltava montar! Acabado o assunto, tudo voltou à normalidade. Plínio se despediu de Procópio que, mansamente, voltou à posição anterior e fechou os olhos para dormir. Procópio Ferreira morreu dois dias depois. Foi a última apresentação de sua carreira...
SAIBA MAIS:
Poeta, teatrólogo, cantor e compositor. Nasceu em 8/10/1863, São Luís, MA e faleceu com 83 anos em 10/5/1946 no Rio de Janeiro, RJ. Filho do ourives Amâncio da Paixão Cearense e Maria Celestina Braga da Paixão. Teve dois irmãos: Gil e Gerson.
Quando tinha dez anos, mudou-se com a família para o sertão do Ceará e em 1880, para o Rio de Janeiro. Dispunha de uma fortaleza física, que o ajudou no cais do porto, onde trabalhou como estivador. Freqüentava repúblicas estudantis e vivia entre os chorões da época, dentre eles: Viriato (flautista), Anacleto de Medeiros (compositor e regente), Cadete (cantor), e outros. No Colégio Teles de Meneses, estudou português, matemática e francês.
Chegou a traduzir poetas internacionais famosos. Através destes relacionamentos boêmios, aprendeu a tocar violão e flauta. Em 1885, morou na residência do senador do Império Silveira Martins, onde teve a incumbência de lecionar o português aos filhos. Fundou um colégio no bairro da Piedade, passando a lecionar línguas.
Compilou letras de modinhas, lundus e cançonetas da época, e as publicou através da Livraria do Povo. Publicou também obras suas, tais como: O cantor fluminense, Lira dos salões, Novos cantares, Lira brasileira, Canções da madrugada, Trovas e canções e Choros ao violão. Conhecido como "vate sertanejo", deixou 15 livros de poemas, dentre eles Meu sertão (1918), Sertão em flor (1919), Poemas bravios (1921), Mata iluminada, Aos pescadores (1923), Meu Brasil (1928), Um boêmio no céu, Alma do sertão (1928) e Poemas escolhidos (1944). Suas poesias eram adaptadas a canções de compositores famosos (Chiquinha Gonzaga, Anacleto de Medeiros, João Pernambuco, Antônio Callado, Pedro Alcântara) e nas vozes de Mário Pinheiro, Eduardo das Neves, Cadete, Vicente Celestino, e outros, sua obra ganhava popularidade, consagrando-o.
Autor maldito de assuntos malditos como homossexualismo, marginalidade, prostituição e violência, Plínio Marcos foi um dos primeiros a retratar a vida dos submundos de São Paulo.
É o João Antônio do teatro brasileiro. Nunca cedeu. Impôs, sempre, sua verve sem hipocrisias. Direta, forte e sem arestas. Era, segundo ele mesmo afirmava, "figurinha difícil". Foi, entre as coisas que dele se sabe, dramaturgo, ator, jornalista, tarólogo, camelô de seus próprios livros, técnico da extinta TV Tupi, jogador de futebol e palhaço.
Nasceu em Santos (SP) a 29 de setembro de 1935 e morreu em São Paulo (SP) a 19 de novembro de 1999. Depois de tentar tornar-se jogador de futebol e de trabalhar como palhaço de circo por cinco anos, escreveu, aos 22 anos, sua primeira peça, "Barrela", a qual chegou às mãos de Patrícia Galvão (Pagú), que ficou entusiasmada ao lê-la.
A partir daí e com a ajuda de Pagú, Plínio integrou o elenco de companhias amadoras de teatro. Depois, transferiu-se para São Paulo, no início da década de 60, onde participou da criação do Centro Popular de Cultura da UNE (União Nacional dos Estudantes).
Na década de 60, Plínio participou, também, da novela Beto Rockfeller, na TV Tupi, de 4 de novembro de 1968 a 30 de novembro de 1969, fazendo o papel de Vitório, melhor amigo de Beto Rockfeller (Luiz Gustavo) —personagem principal da novela.
Em entrevista concedida à Folha, em 1993, Plínio afirmou: "nunca gostei de trabalhar. Só fiz "Beto Rockfeller" para não ficar órfão ("ficar órfão" significava cair nas garras dos militares). Quando me ofereceram o papel, pensei: se aceitá-lo, ganharei evidência. E, enquanto estiver em evidência, os milicos não me pegarão."
Aliás, a ligação de Plínio com a TV brasileira nunca foi das melhores, em 1994, ao responder à pergunta "Qual foi o 1º programa que você viu na TV?", feita para uma enquete do caderno TV Folha, da Folha de S.Paulo, ele respondeu: "Nada. Nunca vi TV". Na mesma época da novela Beto Rockfeller, Plínio era uma pedra no sapato dos militares que governavam o país. Eles o viam como um "inimigo do sistema".
Seu crime? As peças "Dois Perdidos numa Noite Suja" e "Navalha na Carne", escritas entre 1966 e 1967. Para os milicos, peças que traziam um mundo sem meias palavras, direto e convincente, que davam tratamento dramático à realidade de prostitutas, gigolôs e bandidos, poderiam servir à subversão. Sob o governo militar, "Barrela" também foi proibida, e, em 1970, "Abajur Lilás" foi censurada. (As duas obras só seriam liberadas em 1980.)
Com todas as suas peças proibidas pelo regime militar, Plínio quase desistiu da carreira de Dramaturgo. Na década de 80, quando a ditadura terminou e suas peças foram liberadas, Plínio novamente surpreendeu. Escreveu as peças "Jesus Homem" e "Madame Blavatsky" nas quais mostra um lado mais espiritualista.
Em 1985, ganhou os prêmios Molière e Mambembe pela peça "Madame Blavatsky". Entre suas melhores obras estão: "Barrela" (1958), "Dois Perdidos Numa Noite Suja" (1966), "Navalha na Carne" (1967), "Quando as Máquinas Param" (1972), "Madame Blavatsky" (1985). Segundo o crítico e historiador de teatro, Décio de Almeida Prado, "Plínio tinha uma experiência humana ligada às classes pobres e levou esse mundo para o teatro, até então em grande medida desconhecido.
O teatro dele não era exatamente político, de pobres contra ricos, mas trazia uma experiência amarga dos pobres, e isso representou uma grande novidade. "Navalha na Carne" é uma peça com muita força, com três excluídos que sofrem e nos fazem sofrer". Plínio fez ainda outras novelas como ator: Bandeira 2 (TV Globo), João Juca Jr. e Tchan, a Grande Sacada (TV Tupi).
João Procópio Ferreira foi o ator que popularizou o teatro nos anos 40 e 50. Nasceu no Rio de Janeiro, em 1898, e morreu em 1979, aos 79 anos. Quando ingressou na Escola Nacional de Teatro do Rio, aos 18 anos de idade, foi expulso de casa.
Estreou no palco em 1917 e, cinco anos depois, já tinha sua própria companhia. Seu primeiro êxito como empresário-ator foi em A Juriti, de Viriato Correia; celebrizou-se, entretanto, como protagonista de Deus lhe Pague, de Joraci Camargo. Entre seus sucessos estão: O Avarento, de Moliére; A Capital Federal, de Artur Azevedo; Esta Noite Choveu Prata, de Pedro Bloch. Procópio, em 61 anos de carreira (1917/1978), atuou em 461 peças. Era tão popular que chegou a fazer 18 apresentações por semana.
Também atuou no cinema. Sua carreira cinematográfica teve início em Portugal, com O Trevo de Quatro Folhas (1936); no Brasil, atuou em vários filmes, entre eles, O Comprador de Fazendas (1951), Quem Matou Ana Bela (1956). O filme o Comprador de Fazendas é baseado em um conto do livro “Urupês” de Monteiro Lobato. O roteiro deste filme foi adaptado por Mário del Rio, Guilherme de Figueiredo e Miroel Silveira. O filme foi estrelado por Procópio Ferreira, Henriette Morineau e Hélio Souto. Foi um tremendo sucesso, tanto de crítica quanto de público.
A atriz Fernanda Montenegro, em um entrevista concedida à Folha de S.Paulo no dia 10 de julho de 1998, afirmou que Procópio “era um fogo vivo. Um ator no esplendor dessa herança do ator brasileiro, do improviso, da presença dinâmica, dele com a platéia”. Participou de poucas telenovelas, tais como Redenção (TV Excelsior), As Divinas e Maravilhosas (TV Tupi) e As Minas de Prata (TV Excelsior).
JOSÉ VITOR RACK
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4 comentários:
republicar textos antigos é massa :)
Olá!
Quando eu era uma criança, meados dos 1980, encontrei Procópio Ferreira em uma área rural de São Paulo.
O lugar era uma estrada em terra batida e esburacada, estava escuro, garoava e ventava muito, era por volta das 20horas.
Eu, com parte da minha família estávamos voltando para a cidade, depois de um dia numa chácara, em uma perua kombi.
Uma das rodas do carro entrou em um buraco cheio de lama e não saía. Depois de uns 20 minutos de tentativa, eis que surge o Procópio Ferreira. Ele estava a pé, empunhando guarda-chuva e uma lanterna.
Junto com os meus parentes, os adultos, ele empurrou o carro, deu a idéia de pegar um tronco de árvore e fazer uma alavanca improvisada.
Saímos daquele lugar alegres por ter atolado.
Abraço.
Os gigantes de nossa raça são assim: não podem ser vencidos sequer pela doença, e mesmo em seus leitos de morte, ainda encontram forças para a criação de grandes obras...
Interessantíssima essa história... Tanta gente viva reclamando de incapacidade pra isso e praquilo, e o Procópio, deitado e enfermo, faz o que muito ator hoje em dia não faz (também, com essa comercialização e, porque não dizer, prostituição da profissão, não é de se espantar que a nobreza e o brilho de outrora tenham se tornado opacos... Mas felizmente existem exceções - sempre existirão).
E eu não sabia que o Plínio era meu conterrâneo hehehe
Força caiçara! rs
cara muita cultura hj em dia essa historia eu nao conhecia nem conhecia o cara parabens =]
www.ksm-sama.blogspot.com
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