segunda-feira, 21 de janeiro de 2008

SEDE DE SANGUE

Há poucos dias. Enquanto ia a pé até a banca mais próxima para comprar o jornal, me deparo com uma movimentação não muito comum na esquina logo em frente. Não resisto. Me aproximo e tento ver o que aconteceu. Nessas horas acho até que existe um espírito jornalístico em mim, mas em seguida sempre passa (graças a Deus). No chão um corpo recém coberto. Se tivesse deixado para escovar os dentes na volta, poderia ter visto o corpo descoberto. Pergunto para uma moça loira o que aconteceu. “Um moço se tacou do prédio, coitado”. “É, coitado”. Atravesso a rua e chego à banca da esquina seguinte de onde tem toda aglomeração de pessoas, bombeiros e ambulância.

Peço o jornal e dou a grana. O jornaleiro me pergunta se vi o corpo no chão. Respondo que sim, é claro. Só gostaria de ter visto a queda. Ele me olha incrédulo. Pego o jornal e dou as costas para sair. Tenho a impressão de ter ouvido um eu heim... Eu heim?!

Qual é o problema? Esse é o voyeurismo favorito atualmente. Ver desgraça alheia, principalmente quando é algo violento e trágico. Paramos para ver atropelamentos, acidentes de carro e brigas de casais na calçada da Avenida Paulista.

Até nossos divertimentos são pautados por infelicidade e infortúnio. Ontem mesmo me esbaldei vendo pela terceira vez Kill Bill. Os litros de sangue que jorraram durante todo o filme me fizeram quase gozar – depois de ver se não havia respingado nada no tapete. Novela sem desgraça, tramas diabólicas e gente desajustada não é digna de ser chamada de novela. Adoramos ver irmã passando irmã para trás, irmãos brigando por dinheiro e traição entre casais. A reprodução do nosso dia-a-dia se torna mais interessante na tela. Julgamos os outros, mas jamais nós mesmos.

Veja bem. É algo mais forte que eu. Que você também, não tenha vergonha de assumir. Nós sempre gostamos de ver desgraça. Desde criança. Quando saía briga no pátio do colégio era um empurra-empurra danado para tentar ficar próximo da confusão, a fim de ver um dente voar, um nariz quebrar ou um olho inchar.

A verdade é que voltei para casa encafifado por não ter visto o corpo do rapaz esborrachado no chão. Vejo toda violência do mundo pela televisão, ouço no rádio e me divirto com ela nos filmes, mas, ao mesmo tempo em que parecem tão próximas, estão tão distantes. Queria que o sangue quente do jovem deprimido respingasse nas barras de meu jeans, faria me sentir mais vivo.

Folheei o jornal e pensei em torcê-lo para ver se escorreria sangue. Mas dei a ele o único fim que um jornal brasileiro merece. Forrar o chão para o cachorro defecar em cima. Pensei em assistir Kill Bill mais uma vez para matar minha sede por sangue, violência e morte.

Será minha natureza animal?

Thiago Duran Nogueira
thiagoduran@terra.com.br

Thiago Duran Nogueira nasceu em São Paulo em fevereiro de 1983. É dramaturgo, ator e roteirista. Além de trabalhar com jornalismo e produção teatral.

4 comentários:

Pocow Woolf disse...

Cara, muito massa a postagem, mas confesso que fiqui com medo de você.
HUHAUahuAHuahUAHAuhauh

maricotO disse...

Adoro, amaria ver brigas de casal na Avenida Paulista, amo ver na tv irmãs e casais se traindo, correria pra ver na escola a briga.
MAS, afaste o sangue de mim, deixa a violência física pra quem gosta.
Amei Kill Bill, aquele sangue é arte! rsrsrs
Mas realmente, a violência física(exclua-se as brigas passionais sem trágico fim), sangue no chão, corpo caido de prédio, atropelamentos, batidas Não! esse não.
Mas vai ver é só uma variante da sede que você diz q todos tem pela desgraça alheia!

ótimo texto!
o.O

Feänor disse...

É, mas é bem por aí mesmo...

Existem estudos que comprovam o que você diz. O próprio psicólogo Steven Pinker, não lembro se no seu livro "Como Funciona A Mente Humana" ou "Tábula Rasa" explica essa mecânica do voyeurismo escatológico.

Mas pra que pesquisas... É só sair na rua e observar as aglomerações.

É como quando um bando de homens faz um bunda-lelê para algumas moçoilas que, enojadas, declamam um sonoro "Aiiiii" e tapam seus olhos com suas mãos, deixando, porém, uma conveniente abertura por onde observam maravilhadas o universo oculto dos glúteos pelúdos masculinos...

O escatológico atrai.

Arne Balbinotti disse...

Acho que nem todos são assim, mas se você se sente feliz, que bom pra você né.
Pelo menos você já sabe de verdade o que te diverte, enquanto muitos por ai se divertem escondidos...
Abraços.

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