quarta-feira, 30 de janeiro de 2008

O PRINCÍPIO É O VERBO?


A greve dos roteiristas de Hollywood está bombando...

Parece muito com aquelas graves gerais da CGT francesa ou as dos metalúrgicos do ABC, quando aquele barbudo por lá passou.

As novas mídias estão dando lucro para todos, menos para eles. DVD’S e exibições/downloads na Internet não estão gerando nenhum incremento de receita para quem escreve, fato este que a greve denuncia e procura corrigir.

O engraçado é que, por serem roteiristas, as pessoas não enxergam a greve como sendo algo natural, como as paralisações que diversas outras classes profissionais fizeram e fazem mundo afora. As pessoas já têm a tendência natural de achar que quem vive do que escreve, no fundo não trabalha. Em vez de estudar para o próximo concurso da Caixa Econômica e garantirem uma carreira segura e estável, ficam martelando teclados por aí esses vagabundos.

E os americanos são vagabundos em greve, baita agravante. Mais de dez mil desocupados filiados ao
sindicato de lá. É ócio pra cacete.

O fato é que a galera yankee está fazendo barulho e garantindo um espaço na mídia para que sua voz seja ouvida pelos grandes estúdios de cinema e produtores de televisão. O Globo de Ouro balançou esse ano e o Oscar também será prejudicado, caso ele realmente aconteça. Em 1988 já havia acontecido uma greve monstro como essa, não sei se com a mesma repercussão.

Los Angeles é uma cidade que lucra muitíssimo com os negócios que as batucadas no teclado dos roteiristas geram. Óbvio que uma paralisação deles é mau negócio para todos. Custa atenderem as justas reivindicações dos caras?

Custa.

Custa dinheiro. E implica numa abertura de cabeça das pessoas que geram esse negócio para o fato de que nada se faz sem um bom texto. Não há Jack Nicholson ou Meryl Streep que façam qualquer coisa que preste sem roteiro. É como querer fazer churrasco sem fogo.

Todos já sabem que não há reality shows que supram a necessidade de entretenimento do público. E mesmo que suprissem, em alguns o roteirista se faz presente, desvalorizado e mal pago como quase sempre.

Vagabundo há em todo lugar.



JOSÉ VITOR RACK
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domingo, 27 de janeiro de 2008

MARIO PRATA PARA PRESIDENTE

Crônica de Mario Prata publicada no jornal O ESTADO DE SÃO PAULO em 17/02/1999.

AH, VOVÓ MARIA!

Nosso caso já tem uns três ou quatro anos. Tudo começou quando ela me mandou uma carta de fã ardorosa destas minhas bobagens de quarta-feira e da minha boca de todos os dias. Dizia que os meus lábios eram demais.


E mais: que tinha 80 e poucos anos. Sei quanto ela tem, mas não vou entregar. E mandou, de quebra, umas piadas que eu, aliás, publiquei aqui.

Ela continuou a me escrever, sempre para a redação. Escreve bem, a danadinha. Aí me contou que tinha perdido um filho que deveria estar hoje mais ou menos com a minha idade. E que queria me adotar. Primeiro, como filho. Depois, resolveu que eu ia ser neto dela.

Como, na época, eu estava mesmo sem nenhuma avó, aceitei. Há muito que Quita e Fiíca haviam partido, assustadas com minhas estripulias de adolescente. Não se rejeita uma avó que cai assim do céu.

Sempre que ela escrevia eu citava, de uma maneira ou de outra, aqui na crônica, a palavra mágica "vovó Maria". Era o nosso tácito pacto. Ela sabia, e somente ela entendia, que eu estava no pedaço.

Uma vez me mandou meias de lã. Era inverno. Meias tricotadas por ela. Cinzas. Achava que o cano tinha ficado curto, dizia na cartinha. E tinha. Mas eu fiquei na minha. Dormi um bom inverno com as meias dela. Curtas, mas que saíram desse amor dela, que só me envaidece.

Depois deu para bordar lenços com as iniciais MP. Nunca soube se era Mario Prata ou medida provisória. Sim, as medidas das avós são sempre provisórias. As definitivas sempre ficam por conta dos pais. Avó deixa tudo.

Uma época ela sumiu. Meses. Achei que tinha morrido. Fiquei na minha.

De repente, chega uma carta, como sempre com a letra firme: "Acharam que eu ia morrer e me deixaram na UTI meses. Olha eu aqui de novo."

Agora, sabendo que eu ia passar o carnaval na Bahia, me escreveu e deu conselhos de avó. Me mandou até uma bonequinha linda, uma baiana com todos aqueles balangandãs. Mas a senhora não sabe da maior, vovó Maria.

A senhora acredita que o prefeito de Salvador, que atende pelo nome de Imbassahy, aquele que me convidou pelo telefone, depois se esqueceu de mim? Embassou (com dois esses, como Imbassahy). Será que ele se esqueceu de mim, ou será que baiano é assim mesmo? Fiquei aqui, esperando, feito mineiro que sou.

Acabei ficando aqui em São Paulo. Tudo bem, adoro esta cidade nos feriados. Ficar andando de carro pra cima e pra baixo, ouvindo os Beatles. Não há nada mais maravilhoso do que atravessar toda a Avenida Paulista, de noite, com chuva, ouvindo Yellow Submarine. É uma viagem concreta, de concreto e muita inspiração. Pois eu estava agora mesmo fazendo isso e pensando na vovó Maria de quem só conheço a letra, mas posso imaginar a música.

Pra parecer mais ainda um conto de fadas, mora em Piedade, interior de São Paulo, a danada. Mas, de vez em quando, manda correspondência de Catanduva, onde mora uma das suas filhas, tia minha, portanto.

Não sei o que a vovó Maria anda pensando lá no alto da sua Piedade sobre o Brasil de hoje. Será que quando o presidente diz que está tudo bem, ela, como eu, pensa: ou é doido ou tá mentindo? Como a gente sabe que ele não é doido, né, vovó Maria?, ele tá mesmo é enrolando a gente.

No fundo é um bom homem, né, vó? Tá certo que aquela tal de Avenida Paulista hoje só tem banco estrangeiro. Fazer o que, né mesmo?

Pois eu estava lá na Paulista ouvindo o Yellow Submarine e pensando na Tiazinha que me sorria de todas as capas de revistas semanais, mensais e anuais (literalmente). Por que a Tiazinha também não me escreve e me adota como sobrinho? É tudo o que eu estou precisando, vovó Maria. Uma Tiazinha com um plantãozinho semanal. E que não se esqueça do chicote, do chiclete e do decote.
*

Talvez com essa declaração pública, a vovó Maria venha a ralhar comigo e peça para eu não bulir com certas coisas.

O que eu quero dizer é que é maravilhoso ter entre as minha leitoras uma vovó Maria, de 80 e tantos e, ao mesmo tempo, aquelas adolescentes que fizeram uma home page minha (www.geocities.com/Paris/Cafe/2663), que são, cá entre nós "sobrinhas".

Só que, até hoje eu não entendi nem o café, nem Paris. Delas eu só entendo o carinho.

Bença, vó!

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Crônica de Mario Prata publicada no jornal O ESTADO DE SÃO PAULO em 29/05/1995.

HOMEM GOSTA É DE HOMEM?

- Homem gosta de homem!

Disse, corajosamente, o cartunista Miguel Paiva (Radical Chic) na semana passada no gostoso (e gostosa) Marília Gabi Gabriela. É preciso ter peito para fazer-se uma declaração dessa em público. E, quem tem peito, geralmente, são as mulheres. E a Marília retrucou:

- Mulher também.

Escrevi e montei uma peça há uns anos atrás, chamada Bésame Mucho (que depois virou filme do Ramalho). Esta peça tratava justamente deste assunto. A relação de ternura entre dois homens. Da infância até a maturidade. Antes que alguém viesse dizer que era coisa de viado, tive que inventar uma palavra para explicar a relação entre os dois personagens masculinos. A palavra era "homoternurismo" e, para minha infelicidade, até hoje não se incorporou ao Aurélio.

Mulher é bom, é ótimo, nem se discute.

Mas que os homens preferem os homens, também não se discute. Desde a infância, menino gosta de brincar com menino. Clube do Bolinha. Menina não entra! Na adolescência, é a mesma coisa. Temos olhos para os seios e os bumbuns da meninas, mas no meu time de futebol elas não entravam. Era rapaz de um lado e as meninas do outro.

A gente casa, ama a esposa da gente, tem filhos, mas não vê a hora de ir para o botequim tomar umas e outras com os amigos. Os amigos do peito. Já notaram que os homens não têm amigas do peito? Têm amigas com peito.

Na hora da confidência mais confidencial, na hora do aperto, do ombro amigo, é o amigo do peito (para se chorar) que está ali.

Favor não confundirem, jamais, homoternurismo com homossexualismo.

E a gente vai crescendo e vai formando o nosso time de amigos eternos, confiáveis, pau (ops!) pra toda obra.

O domingo, por exemplo, foi feito para se passar com os amigos. O jogo de futebol, os gols na televisão, a cervejinha gelada. Mas qual é a mulher que não quer ir a "um cineminha" no domingo? Devia ser proibido mulheres aos domingos, dizia um meu amigo do peito, casado.

Tudo isso que eu escrevi aí em cima, se for mesmo válido, só é válido até uma certa idade. A idade que eu estou agora.

Quase cinquenta anos, cheio de amigos e sem nenhuma mulher. Talvez por pensar assim. Um misógino!, diriam elas. Mas o mesmo Aurélio, que não consolidou o homoternurismo, diz que misoginia é uma "repulsa mórbida do homem ao contato sexual com as mulheres". Não é o caso.

E, outro dia, discutia isso com um vellho amigo velho de 84 anos. Ele concordou, em termos, do alto de sua sabedoria de ancião. Mas fez uma ressalva. Jogou na minha cara:

- Daqui para a frente, é melhor começar a convidar mulheres para ir ao jogo de futebol. É melhor ir aprendendo a tomar caipirinha com mulheres no sábado antes da feijoada. Já está na hora de parar de reparar apenas nos seios e nas bundinhas da mulheres. As mulheres têm mais alma que os homens!

- E daí?, respondeu o machão aqui.

- E dai, meu filho, que você na velhice vai ficar chato, intransigente, metódico, sistemático. Aliás, já está ficando. E não tem nenhum amigo do peito nessa hora para te socorrer. Se você chegar sozinho na velhice, não conte comigo, que eu já fui embora. Quem sempre cuidou de você foram as mulheres. A começar pela sua mãe.

- Você está querendo que eu arrume uma outra mãe?

- Não, meu filho. Uma mulher. Vai por mim, mulher é muito melhor que homem. E quanto mais velhas ficam, melhor nos entendem. Ao contrário dos homens.

E pediu mais uma caipirinha, enquanto olhava o traseiro da jovem, muito jovem, garçonete. Encerrou, com o olhar distante:

- Mulher é o que há, menino! Trate logo de arrumar uma, enquanto você está vivo... E quer saber de mais uma coisa? Esse papo de homoternurismo, pra mim, é coisa de viado!

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http://www.marioprataonline.com.br/

sexta-feira, 25 de janeiro de 2008

INTOLERÂNCIA É UMA MERDA

O post que publiquei aqui no IDÉIA NOVA sobre vários casos notórios de violência urbana no Brasil ainda está rendendo. Pra quem não leu, segue o atalho:

http://ideianovanaweb.blogspot.com/2008/01/uma-dor-desnecessria.html

Neste texto eu falo do caso Daniella Perez e abordo ainda o problema enfrentado pela Glória Perez ao criar uma telenovela ambientada no universo dos rodeios, quando foi ameaçada e constrangida por diversos ataques imbecis de uma turma criminosa que se intitula como sendo defensora dos animas.

Recebi um comentário anônimo neste post que está no atalho acima, para quem quiser ler. Como quem comentou foi um anônimo, não tenho como responder. Portanto, faço isso aqui mesmo. Serve como resposta padrão para todos os que se sentirem ofendidos com o que escrevi.

Defendo Glória Perez por admirá-la profundamente como mulher e como escritora. Defendo Glória Perez porque também escrevo, sei o que se passa no coração de alguém que concebe uma obra, perde noites de sono e se dedica com carinho a um trabalho para depois vê-lo vilipendiado e mal-compreendido dessa maneira.

Isto posto, tenho de fazer uma separação muito clara: Vegetarianos e ativistas em prol dos direitos dos animais são uma coisa. Zoonazistas, criminosos que se escondem por trás da capa bonitinha de militantes por uma causa nobre, são outra coisa completamente distinta.


A causa vegetariana é legítima. Um dos meus maiores ídolos é um vegetariano radical, grande defensor e financiador da causa: Paul McCartney. Também julgo como legítima a causa dos defensores dos animais. Não vou a rodeios.

Agora, mais legítima que a causa vegetariana ou que a luta dos defensores dos direitos dos animais é a causa da LIBERDADE DE EXPRESSÃO. Passamos anos sob censura rígida, quando nada era criado para teatro, cinema ou TV sem passar sob a égide de gente bitolada lá de Brasília. Glória tinha o direito de colocar o que ela quisesse em sua novela, desde que respeitando a classificação horária.

Torpe e imoral, para mim, é a falta de respeito. Afeto pelos animais, para mim, denota bom caráter. Desprezo pelo semelhante, para mim, denota doença psiquiátrica grave.

Resumindo: Não tenho absolutamente nada contra vegetarianos e ativistas pelos direitos dos animais. Considero ambas causas legítimas, que merecem o respeito da sociedade. Mas sou completamente avesso a gente xiita, intolerante, mal educada, etc. E isso independe de ideologias.

Gente boa e gente ruim há em qualquer lugar.
*

ORAÇÃO AO PÉ FEMININO

de Henfil

Vem com pés de lã passear pelo meu peito.
Vem de manso ou de repente, pé de anjo, vem de qualquer jeito
Domar o meu espanto
de ser subjugado sob os pilotis das coxas do objeto amado.
Vem com uma pulseira de cobre nos artelhos,
exorcizar os mil demônios que se enroscam entre os meus pentelhos.
Vem ser lambido, lambuzado, entre os dedos,
vem girar os calcanhares no meu rosto, torturador sádico
querendo extorquir segredos.

Vem me submeter a tua tirania sem idade,
vem violentar e ser violentado, cair de pé, em pé de igualdade.
Vem com teu exército de dedos sobre mim perplexo.
Vem pedestal.
Vem sereníssimo esmagar a cabeça de serpente do meu sexo.
*

quinta-feira, 24 de janeiro de 2008

SÉRGIO JOCKYMANN NÃO PODE SER ESQUECIDO


Jornalista, romancista, poeta, ex-deputado e dramaturgo, nasceu em 1930, em Palmeiras das Missões, RS. Escreveu peças de sucesso como BOA TARDE, EXCELÊNCIA, LÁ e TREZE, além de telenovelas diversas, como O MACHÃO, RODA DE FOGO, A GORDINHA, entre outras.



OS VOTOS



Pois, desejo primeiro que você ame,
E que amando, também seja amado.
E que se não for, seja breve em esquecer,
E que esquecendo, não guarde mágoa.
Desejo, pois, que não seja assim,
Mas se for, saiba ser sem desesperar.

Desejo também que tenha amigos,
Que mesmo maus e inconseqüentes,
Sejam corajosos e fiéis,
E que pelo menos num deles
Você possa confiar sem duvidar.
E porque a vida é assim,
Desejo ainda que você tenha inimigos.
Nem muitos, nem poucos,
Mas na medida exata para que, algumas vezes,
Você se interpele a respeito
De suas próprias certezas.
E que entre eles, haja pelo menos um que seja justo,
Para que você não se sinta demasiado seguro.

Desejo, depois, que você seja útil,
Mas não insubstituível.
E que nos maus momentos,
Quando não restar mais nada,
Essa utilidade seja suficiente para manter você de pé.

Desejo ainda que você seja tolerante,
Não com os que erram pouco, porque isso é fácil,
Mas com os que erram muito e irremediavelmente,
E que fazendo bom uso dessa tolerância,
Você sirva de exemplo aos outros.

Desejo que você, sendo jovem,
Não amadureça depressa demais,
E que sendo maduro, não insista em rejuvenescer,
E que sendo velho, não se dedique ao desespero.
Porque cada idade tem o seu prazer e a sua dor e
É preciso deixar que eles escorram por entre nós.

Desejo, por sinal, que você seja triste,
Não o ano todo, mas apenas um dia.
Mas que nesse dia descubra
Que o riso diário é bom,
O riso habitual é insosso e o riso constante é insano.

Desejo que você descubra, acima e a despeito de tudo,
Com o máximo de urgência, talvez agora mesmo,
Mas se for impossível, amanhã de manhã,
Que existem oprimidos, injustiçados e infelizes,
E que estão à sua volta.

Desejo ainda que você afague um gato,
Alimente um cão e ouça o joão-de-barro
Erguer triunfante o seu canto matinal,
Porque assim você se sentirá bem por nada.

Desejo também que você plante uma semente,
Por minúscula que seja,
E acompanhe o seu crescimento,
Para que você saiba de quantas
Muitas vidas é feita uma árvore.

Desejo, outrossim, que você tenha dinheiro,
Porque é preciso ser prático.
E que pelo menos uma vez por ano
Coloque um pouco dele
Na sua frente e diga: 'Isso é meu'.
Só para que fique bem claro quem é o dono de quem.
Desejo também que nenhum de seus afetos morra,
Por ele e por você.
Mas que, se morrer, você possa chorar
Sem se lamentar e sofrer sem se culpar.

Desejo, por fim, que você sendo homem,
Tenha uma boa mulher,
E que sendo mulher,
Tenha um bom homem.
E que se amem hoje, amanhã e nos dias seguintes,
E quando estiverem exaustos e sorridentes,
Ainda haja amor para recomeçar.

E se tudo isso acontecer,
Não tenho mais nada a te desejar.

++++++++++++++++++++++++++
Publicado em 30/12/1978, no Jornal Folha da Tarde de Porto Alegre, RS.

quarta-feira, 23 de janeiro de 2008

O HUMOR DE RHAOUL NETO


CONHEÇA O TRABALHO DO RHAOUL
http://www.raulkuadrinhos.blogspot.com/

terça-feira, 22 de janeiro de 2008

QUIÉN PUEDE, PUEDE

Não sei se você sabe, mas os espanhóis têm o delicioso hábito de dormir logo após o almoço. É a famosa siesta.

Quando a Guerra Civil espanhola terminou, deixou a incipiente república pobre e as famílias famintas. Os chefes de família tinham que trabalhar até a noite para prover o sustento de seus filhos, desmaiando de cansaço logo após o almoço. O hábito se espalhou pelo país e hoje até os desempregados não ficam acordados após comer.

Nunca gostei de dormir após o almoço. Não que isso não seja bom, pelo contrário. Acho uma maravilha. O problema é que não sei tirar cochilos. Gosto de dormir até o sono acabar. Quando, eventualmente, durmo uns quarenta minutos depois do almoço, acordo irritado e praguejando contra o inexorável fato de ter de trabalhar.

Os horários espanhóis também são diferentes dos demais na Europa e na maior parte do mundo. Lá o horário comercial começa lá pelas 10 e almoça-se nunca antes das 15. A grande maioria das lojas e escritórios só fecha às 21, uma hora antes do jantar.

Ou seja: na Espanha é sempre véspera de Natal. Aqui no Brasil, como sabemos, as lojas de rua só nos dão essa colher de chá de fechar mais tarde em Dezembro. E olhe lá!

Santa siesta.

A Espanha é o que há!
*
JOSÉ VITOR RACK

segunda-feira, 21 de janeiro de 2008

SEDE DE SANGUE

Há poucos dias. Enquanto ia a pé até a banca mais próxima para comprar o jornal, me deparo com uma movimentação não muito comum na esquina logo em frente. Não resisto. Me aproximo e tento ver o que aconteceu. Nessas horas acho até que existe um espírito jornalístico em mim, mas em seguida sempre passa (graças a Deus). No chão um corpo recém coberto. Se tivesse deixado para escovar os dentes na volta, poderia ter visto o corpo descoberto. Pergunto para uma moça loira o que aconteceu. “Um moço se tacou do prédio, coitado”. “É, coitado”. Atravesso a rua e chego à banca da esquina seguinte de onde tem toda aglomeração de pessoas, bombeiros e ambulância.

Peço o jornal e dou a grana. O jornaleiro me pergunta se vi o corpo no chão. Respondo que sim, é claro. Só gostaria de ter visto a queda. Ele me olha incrédulo. Pego o jornal e dou as costas para sair. Tenho a impressão de ter ouvido um eu heim... Eu heim?!

Qual é o problema? Esse é o voyeurismo favorito atualmente. Ver desgraça alheia, principalmente quando é algo violento e trágico. Paramos para ver atropelamentos, acidentes de carro e brigas de casais na calçada da Avenida Paulista.

Até nossos divertimentos são pautados por infelicidade e infortúnio. Ontem mesmo me esbaldei vendo pela terceira vez Kill Bill. Os litros de sangue que jorraram durante todo o filme me fizeram quase gozar – depois de ver se não havia respingado nada no tapete. Novela sem desgraça, tramas diabólicas e gente desajustada não é digna de ser chamada de novela. Adoramos ver irmã passando irmã para trás, irmãos brigando por dinheiro e traição entre casais. A reprodução do nosso dia-a-dia se torna mais interessante na tela. Julgamos os outros, mas jamais nós mesmos.

Veja bem. É algo mais forte que eu. Que você também, não tenha vergonha de assumir. Nós sempre gostamos de ver desgraça. Desde criança. Quando saía briga no pátio do colégio era um empurra-empurra danado para tentar ficar próximo da confusão, a fim de ver um dente voar, um nariz quebrar ou um olho inchar.

A verdade é que voltei para casa encafifado por não ter visto o corpo do rapaz esborrachado no chão. Vejo toda violência do mundo pela televisão, ouço no rádio e me divirto com ela nos filmes, mas, ao mesmo tempo em que parecem tão próximas, estão tão distantes. Queria que o sangue quente do jovem deprimido respingasse nas barras de meu jeans, faria me sentir mais vivo.

Folheei o jornal e pensei em torcê-lo para ver se escorreria sangue. Mas dei a ele o único fim que um jornal brasileiro merece. Forrar o chão para o cachorro defecar em cima. Pensei em assistir Kill Bill mais uma vez para matar minha sede por sangue, violência e morte.

Será minha natureza animal?

Thiago Duran Nogueira
thiagoduran@terra.com.br

Thiago Duran Nogueira nasceu em São Paulo em fevereiro de 1983. É dramaturgo, ator e roteirista. Além de trabalhar com jornalismo e produção teatral.

domingo, 20 de janeiro de 2008

A TV QUE VOCÊ VÊ


Os dados que eu tenho são de 2005.

Tive preguiça de pesquisar algo mais atual.

O fato é que, em 2005, o brasileiro passou 5 horas, 2 minutos e 25 segundos por dia em frente à TV. Isso é em média. Afinal, tem gente que quase não liga a TV enquanto há outros que só a desligam quando vão dormir.

Há de se ter cuidado na hora de analisar esses dados, pois se trata de algo traiçoeiro quando se quer afirmar que o brasileiro vê TV demais. Muita gente deixa o aparelho ligado como se fosse um rádio, ouvindo apenas o som enquanto trabalha, lava a louça, transa... Já pensou fazer sexo com a patroa enquanto a Record transmite a sessão do descarrego?

É possível chamar um cara que assista diariamente a dois telejornais (de diferentes emissoras, claro), que curta os documentários da Cultura, Discovery, BBC, que acompanhe boas séries e a novela de seu autor preferido de alienado? Alguém que não perca o Programa do Jô, o Marília Gabriela Entrevista ou o sagrado Fantástico de todo santo domingo, pode ser classificado como videota? Teletonto?

Não concordo.

Ao mesmo tempo, julgo imbecil quem confesse assistir por mais de dez minutos aos telebarracos da TV aberta, aos humorísticos que me fazem chorar com tamanha falta de criatividade, aos programas de auditório que insistem em insultar a inteligência do público.

Como em tudo na vida, incluindo o sexo, qualidade é primordial. Quantidade é supérfluo.

Agora chega que está na hora daquele programa que eu vi na chamada... Como é mesmo o nome?
*

sábado, 19 de janeiro de 2008

ERRO DE PORTUGUÊS


de Oswald de Andrade


Quando o português chegou

Debaixo de uma bruta chuva

Vestiu o índio

Que pena!

Fosse uma manhã de sol

O índio tinha despido

O português.

sexta-feira, 18 de janeiro de 2008

O REI DAS RESENHAS

Você lê o quanto deveria?

Garanto que gasta horas jogando videogame, vendo Big Brother, jogando truco, tomando cerveja, mas ler que é bom... Dá preguiça só de pensar em abrir os clássicos. Eça, Machado, Dostoievski... Tudo na estante intacto, esperando sua boa vontade...

E aquela rodinha de amigos na faculdade, onde cada um tem uma opinião mais interessante que a outra sobre aqueles livros que você deveria ter lido no colegial e, entediado, pagou pra sua prima CDF ler pra você e resumir num papel almaço?

Não se culpe, também tenho preguiça na maior parte das vezes. Os Maias é o meu livro favorito entre os que não li. Era fã de um site maravilhoso recheado de resenhas. Essas resenhas fizeram minha alegria durante uns bons anos: saber do que se tratavam os livros sem precisar lê-los! Usei o verbo no passado porque perdi o endereço do site num dos meus PC’s que pifaram... Procuro no Google até hoje em vão.

Sim, eu minto quanto à minha formação intelectual. E daí?

Onde é que está escrito que para dar opinião sobre algum livro é necessário ler dessa maneira careta, burguesa, do princípio até o fim? Sem dar uma puladinha, uma xeretada no final pra ver se compensa o investimento?

O maravilhoso do livro, e o que o torna insubstituível, é que ele pode ser utilizado das mais diversas maneiras pelo leitor. Cada um estabelece com ele a relação que quiser. E engana-se quem pensa que aquele que leu o livro inteiro leva vantagem nos conhecimentos sobre o mesmo em cima de quem só leu uma resenha, por exemplo.

Quem leu a resenha, leu o filé. Sabe a essência da obra, conhece o fundamental. Sim, perde o mais gostoso da brincadeira, que é experimentar o sabor das palavras escolhidas pelo autor, sentir seu estilo... Mas em termos do que é central, uma boa resenha vale a pena.

Muita gente lê em fila de banco, no metrô, na sala de espera do dentista. Não se concentra o quanto deveria. Lê a página 30, mas não lembra direito do que se passou na 25. Aí termina a leitura se julgando superior a quem deu uma enrolada básica. Qual a diferença, Mané?

Não quero desestimular a leitura. Muito pelo contrário.

Leia de cabo a rabo quantos livros você conseguir. Não há nada melhor para sua cultura, sua cabeça e seu espírito. A leitura joga luz sobre as trevas, liberta, ensina, profissionaliza e evita o Alzheimer. Mas se a preguiça ou a falta de tempo forem intransponíveis, leia uma resenha.

Você só ganhará com isso. E ainda vai poder fazer pose de intelectual.
*
JOSÉ VITOR RACK

quinta-feira, 17 de janeiro de 2008

ELE É REY!

Marcos Rey
(*1925 +1999)

http://www.marcosrey.com.br/

Conhece?

Muita gente se lembra dele dos tempos de escola. Autor de dezenas de livros campeões de audiência no ensino fundamental e médio, com histórias sempre divertidas e com pitadas de mistério. Mais de cinco milhões de cópias vendidas. Também fez rádio, pornochanchadas da Boca do Lixo, publicidade.

O já falecido Marcos Rey é um exemplo para qualquer pessoa que sonhe com a carreira de escritor. Quando jovem, teve hanseníase. A temível lepra. Foi internado num sanatório em plena efervescência da juventude. Foi discriminado, sofreu o diabo. Teve de se virar na vida e se fez sozinho. Um completo autodidata. Mais que isso: um sobrevivente, que carregou nas mãos as marcas da doença e de um passado doloroso.

Sua obra é toda assim: divertida, ágil, descompromissada, envolvente. Tem conteúdo, estofo intelectual. Mas ele não se levava tão a sério. Levou para a carreira a experiência de quem já viveu à margem. Seus diálogos variam do kitsch ao sublime em duas linhas. Mostrava São Paulo com tempero de quem senta em boteco, conversa com os caras. Coisa de quem vive. Não de teórico.

Boêmio, amigo de putas, grã-finos, bicheiros e banqueiros. Fã do cachorro engarrafado. Nascido e criado no Bexiga. Sim, ele era oriundi, caríssimo.

Escreveu algumas telenovelas, como Tchan, a Grande Sacada, A Moreninha e Cuca Legal. Viveu fiel a seu trabalho e suas origens. Continua vivo no coração de cada um dos meninos que, hoje homens, lembram-se com carinho dos livros lidos na juventude. Palma, sua mulher, jogou suas cinzas sobre São Paulo. Hoje ele repousa na grama, no asfalto e na alma da cidade. Adormecido, subestimado. Até meio esquecido. Mas presente.

Ele é Rey!

*
*

quarta-feira, 16 de janeiro de 2008

QUEM É O MAIOR?


Em 2007 o São Paulo sagrou-se campeão brasileiro de futebol pela quinta vez. Criou-se uma polêmica em torno do fato do tricolor do Morumbi declarar-se como sendo o único clube campeão do torneio por cinco vezes (1977, 1986, 1991, 2006 e 2007).

A celeuma se deve ao fato do Flamengo, campeão oficialmente em quatro oportunidades (1980, 1982, 1983 e 1992), querer que a Copa União* de 1987 seja considerada nesta conta, o que deixa os dois clubes empatados na hegemonia dos títulos nacionais. Oficialmente, o campeão brasileiro de 1987 é o Sport Recife, já que o Flamengo se recusou a disputar a decisão contra os pernambucanos.


O Flamengo tem razão ao sentir-se campeão de fato de 1987. Disputou um campeonato bem mais forte que o Sport, derrotando na final o Internacional. O São Paulo também tem razão em sentir-se o único pentacampeão de fato e de direito do Brasil, já que nenhum de seus títulos encontra margem para contestação.

Mas se levarmos em conta a história do futebol brasileiro, nenhum deles tem razão. E nenhum deles é hegemônico em termos de títulos nacionais.

O campeonato nacional do Brasil foi instituído em 1971. Mas, desde os anos 50, o país tinha sim campeonatos que definiam qual seria o melhor time do país (Taça Brasil e Torneio Roberto Gomes Pedrosa). Se não eram campeonatos oficiais, disputados nos moldes do que seja aceito hoje pela FIFA, isso não tira a legitimidade de seus vencedores, verdadeiros campeões brasileiros.

Veja o ranking dos legítimos campeões brasileiros:



PALMEIRAS – 7 TÍTULOS (1960, 1967, 1969, 1972, 1973, 1993 e 1994)
SANTOS – 7 TÍTULOS (1961, 1962, 1963, 1964, 1965, 2002 e 2004)
FLAMENGO – 5 TÍTULOS (1980, 1982, 1983, 1987* e 1992)
SÃO PAULO – 5 TÍTULOS (1977, 1986, 1991, 2006 e 2007)
CORINTHIANS – 4 TÍTULOS (1990, 1998, 1999 e 2005)
VASCO – 4 TÍTULOS (1974, 1989, 1997 e 2000)
INTERNACIONAL – 3 TÍTULOS (1975, 1976 e 1979)
BAHIA – 2 TÍTULOS (1959 e 1988)

BOTAFOGO – 2 TÍTULOS (1968 e 1995)
CRUZEIRO – 2 TÍTULOS (1966 e 2003)
FLUMINENSE – 2 TÍTULOS (1970 e 1984)
GRÊMIO – 2 TÍTULOS (1981 e 1996)
ATLÉTICO MINEIRO – 1 TÍTULO (1971)
ATLÉTICO PARANAENSE – 1 TÍTULO (2001)
GUARANI – 1 TÍTULO (1978)
CORITIBA – 1 TÍTULO (1985)
SPORT RECIFE – 1 TÍTULO (1987*)

Títulos por Estado



PAULISTAS – 24 TÍTULOS
CARIOCAS – 13 TÍTULOS
GAÚCHOS – 5 TÍTULOS
MINEIROS – 3 TÍTULOS
PARANAENSES – 2 TÍTULOS
BAIANOS – 2 TÍTULOS
PERNAMBUCANOS – 1 TÍTULO

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terça-feira, 15 de janeiro de 2008

SAUDADES DE UM PALHAÇO SANTISTA

Post originalmente publicado no blog SINOPSE INACABADA no Domingo, 21 de Novembro de 2004.

Vou reproduzir aqui uma história deliciosa que o saudoso Plínio Marcos contou em entrevista ao programa Cena Aberta, recentemente reprisado na TV Câmara.

Segundo Plínio, Bibi Ferreira teria lhe telefonado solicitando que fosse visitar seu pai, o grande ator Procópio Ferreira, que agonizava no hospital. O velho mestre teria um assunto urgente para tratar com ele. Boêmio, Plínio Marcos deu um jeito na portaria de fazer a visita à noite. Lá chegando, ele se deparou com um Procópio fraco, fragilizado, deitado de bruços. Ao vê-lo, Procópio abriu um largo sorriso e começou a falar:

- Plínio, você tem que escrever uma peça pra mim! Não podemos adiar isso, você tem de escrever! Eu quero que você escreva um espetáculo sobre Catulo da Paixão Cearense...

E seguiu animadíssimo, falando alto e com um entusiasmo juvenil que deixou Plínio estupefato. Os outros pacientes do quarto começaram a prestar atenção naquela cena, digamos, pitoresca. Procópio declamava, cantava, atuava, fazia misérias deitado naquele leito hospitalar...

As pessoas foram se aproximando, se espremendo... Em dado momento, Plínio se deu conta de que havia cerca de trinta pessoas dentro do quarto, admirando o talento daquele ator extraordinário. Procópio Ferreira transformou a noite de dor e sofrimento, que é praxe em um hospital, em algo lírico e transformador. Médicos, enfermeiros e pacientes esqueceram-se por um minuto da rotina estressante que viviam e curtiram uma noite do melhor teatro brasileiro.

Procópio praticamente encenou a peça que queria que Plínio colocasse no papel. Estava tudo pronto, as idéias organizadas e ordenadas. Só faltava montar! Acabado o assunto, tudo voltou à normalidade. Plínio se despediu de Procópio que, mansamente, voltou à posição anterior e fechou os olhos para dormir. Procópio Ferreira morreu dois dias depois. Foi a última apresentação de sua carreira...

SAIBA MAIS:

CATULO DA PAIXÃO CEARENSE

Poeta, teatrólogo, cantor e compositor. Nasceu em 8/10/1863, São Luís, MA e faleceu com 83 anos em 10/5/1946 no Rio de Janeiro, RJ. Filho do ourives Amâncio da Paixão Cearense e Maria Celestina Braga da Paixão. Teve dois irmãos: Gil e Gerson.

Quando tinha dez anos, mudou-se com a família para o sertão do Ceará e em 1880, para o Rio de Janeiro. Dispunha de uma fortaleza física, que o ajudou no cais do porto, onde trabalhou como estivador. Freqüentava repúblicas estudantis e vivia entre os chorões da época, dentre eles: Viriato (flautista), Anacleto de Medeiros (compositor e regente), Cadete (cantor), e outros. No Colégio Teles de Meneses, estudou português, matemática e francês.

Chegou a traduzir poetas internacionais famosos. Através destes relacionamentos boêmios, aprendeu a tocar violão e flauta. Em 1885, morou na residência do senador do Império Silveira Martins, onde teve a incumbência de lecionar o português aos filhos. Fundou um colégio no bairro da Piedade, passando a lecionar línguas.

Compilou letras de modinhas, lundus e cançonetas da época, e as publicou através da Livraria do Povo. Publicou também obras suas, tais como: O cantor fluminense, Lira dos salões, Novos cantares, Lira brasileira, Canções da madrugada, Trovas e canções e Choros ao violão. Conhecido como "vate sertanejo", deixou 15 livros de poemas, dentre eles Meu sertão (1918), Sertão em flor (1919), Poemas bravios (1921), Mata iluminada, Aos pescadores (1923), Meu Brasil (1928), Um boêmio no céu, Alma do sertão (1928) e Poemas escolhidos (1944). Suas poesias eram adaptadas a canções de compositores famosos (Chiquinha Gonzaga, Anacleto de Medeiros, João Pernambuco, Antônio Callado, Pedro Alcântara) e nas vozes de Mário Pinheiro, Eduardo das Neves, Cadete, Vicente Celestino, e outros, sua obra ganhava popularidade, consagrando-o.

PLÍNIO MARCOS

Autor maldito de assuntos malditos como homossexualismo, marginalidade, prostituição e violência, Plínio Marcos foi um dos primeiros a retratar a vida dos submundos de São Paulo.

É o João Antônio do teatro brasileiro. Nunca cedeu. Impôs, sempre, sua verve sem hipocrisias. Direta, forte e sem arestas. Era, segundo ele mesmo afirmava, "figurinha difícil". Foi, entre as coisas que dele se sabe, dramaturgo, ator, jornalista, tarólogo, camelô de seus próprios livros, técnico da extinta TV Tupi, jogador de futebol e palhaço.

Nasceu em Santos (SP) a 29 de setembro de 1935 e morreu em São Paulo (SP) a 19 de novembro de 1999. Depois de tentar tornar-se jogador de futebol e de trabalhar como palhaço de circo por cinco anos, escreveu, aos 22 anos, sua primeira peça, "Barrela", a qual chegou às mãos de Patrícia Galvão (Pagú), que ficou entusiasmada ao lê-la.

A partir daí e com a ajuda de Pagú, Plínio integrou o elenco de companhias amadoras de teatro. Depois, transferiu-se para São Paulo, no início da década de 60, onde participou da criação do Centro Popular de Cultura da UNE (União Nacional dos Estudantes).

Na década de 60, Plínio participou, também, da novela Beto Rockfeller, na TV Tupi, de 4 de novembro de 1968 a 30 de novembro de 1969, fazendo o papel de Vitório, melhor amigo de Beto Rockfeller (Luiz Gustavo) —personagem principal da novela.

Em entrevista concedida à Folha, em 1993, Plínio afirmou: "nunca gostei de trabalhar. Só fiz "Beto Rockfeller" para não ficar órfão ("ficar órfão" significava cair nas garras dos militares). Quando me ofereceram o papel, pensei: se aceitá-lo, ganharei evidência. E, enquanto estiver em evidência, os milicos não me pegarão."

Aliás, a ligação de Plínio com a TV brasileira nunca foi das melhores, em 1994, ao responder à pergunta "Qual foi o 1º programa que você viu na TV?", feita para uma enquete do caderno TV Folha, da Folha de S.Paulo, ele respondeu: "Nada. Nunca vi TV". Na mesma época da novela Beto Rockfeller, Plínio era uma pedra no sapato dos militares que governavam o país. Eles o viam como um "inimigo do sistema".

Seu crime? As peças "Dois Perdidos numa Noite Suja" e "Navalha na Carne", escritas entre 1966 e 1967. Para os milicos, peças que traziam um mundo sem meias palavras, direto e convincente, que davam tratamento dramático à realidade de prostitutas, gigolôs e bandidos, poderiam servir à subversão. Sob o governo militar, "Barrela" também foi proibida, e, em 1970, "Abajur Lilás" foi censurada. (As duas obras só seriam liberadas em 1980.)

Com todas as suas peças proibidas pelo regime militar, Plínio quase desistiu da carreira de Dramaturgo. Na década de 80, quando a ditadura terminou e suas peças foram liberadas, Plínio novamente surpreendeu. Escreveu as peças "Jesus Homem" e "Madame Blavatsky" nas quais mostra um lado mais espiritualista.

Em 1985, ganhou os prêmios Molière e Mambembe pela peça "Madame Blavatsky". Entre suas melhores obras estão: "Barrela" (1958), "Dois Perdidos Numa Noite Suja" (1966), "Navalha na Carne" (1967), "Quando as Máquinas Param" (1972), "Madame Blavatsky" (1985). Segundo o crítico e historiador de teatro, Décio de Almeida Prado, "Plínio tinha uma experiência humana ligada às classes pobres e levou esse mundo para o teatro, até então em grande medida desconhecido.

O teatro dele não era exatamente político, de pobres contra ricos, mas trazia uma experiência amarga dos pobres, e isso representou uma grande novidade. "Navalha na Carne" é uma peça com muita força, com três excluídos que sofrem e nos fazem sofrer". Plínio fez ainda outras novelas como ator: Bandeira 2 (TV Globo), João Juca Jr. e Tchan, a Grande Sacada (TV Tupi).

PROCÓPIO FERREIRA

João Procópio Ferreira foi o ator que popularizou o teatro nos anos 40 e 50. Nasceu no Rio de Janeiro, em 1898, e morreu em 1979, aos 79 anos. Quando ingressou na Escola Nacional de Teatro do Rio, aos 18 anos de idade, foi expulso de casa.

Estreou no palco em 1917 e, cinco anos depois, já tinha sua própria companhia. Seu primeiro êxito como empresário-ator foi em A Juriti, de Viriato Correia; celebrizou-se, entretanto, como protagonista de Deus lhe Pague, de Joraci Camargo. Entre seus sucessos estão: O Avarento, de Moliére; A Capital Federal, de Artur Azevedo; Esta Noite Choveu Prata, de Pedro Bloch. Procópio, em 61 anos de carreira (1917/1978), atuou em 461 peças. Era tão popular que chegou a fazer 18 apresentações por semana.

Também atuou no cinema. Sua carreira cinematográfica teve início em Portugal, com O Trevo de Quatro Folhas (1936); no Brasil, atuou em vários filmes, entre eles, O Comprador de Fazendas (1951), Quem Matou Ana Bela (1956). O filme o Comprador de Fazendas é baseado em um conto do livro “Urupês” de Monteiro Lobato. O roteiro deste filme foi adaptado por Mário del Rio, Guilherme de Figueiredo e Miroel Silveira. O filme foi estrelado por Procópio Ferreira, Henriette Morineau e Hélio Souto. Foi um tremendo sucesso, tanto de crítica quanto de público.

A atriz Fernanda Montenegro, em um entrevista concedida à Folha de S.Paulo no dia 10 de julho de 1998, afirmou que Procópio “era um fogo vivo. Um ator no esplendor dessa herança do ator brasileiro, do improviso, da presença dinâmica, dele com a platéia”. Participou de poucas telenovelas, tais como Redenção (TV Excelsior), As Divinas e Maravilhosas (TV Tupi) e As Minas de Prata (TV Excelsior).


JOSÉ VITOR RACK
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segunda-feira, 14 de janeiro de 2008

O HUMOR DE RHAOUL NETO


CONHEÇA O TRABALHO DO RHAOUL

domingo, 13 de janeiro de 2008

FALANDO DE JORGE ANDRADE

Post originalmente publicado no blog SINOPSE INACABADA na Quarta-feira, 22 de Dezembro de 2004.



Quem era Jorge Andrade?

Um dramaturgo que não se acovardou, colocou o dedo na ferida e tratou de racismo, poluição, angústia, depressão, decadência, etc. Todos esses temas, que em uma primeira análise parecem áridos e pesados, foram os discutidos por ele em sua maravilhosa dramaturgia, que foi parar na televisão através da Rede Globo, inicialmente.

Antonio Candido, professor e intelectual, deu à Folha de São Paulo o seguinte depoimento em 1984, no dia da morte de Andrade:

"Para Jorge Andrade o teatro era uma procura da verdade. No seu caso, procura do que significava o mundo onde nasceu, de fazendeiros em crise econômica e social, sofrendo o choque do progresso urbano, sem entenderem bem o que estava acontecendo. Daí ele partiu para descrever as raízes desse mundo e procurar compreender como os seus valores tinham-se formado. Neste percurso descobriu o ângulo do oprimido, daquele cujo trabalho forma a base das prosperidades alheias. E chegou assim a uma visão dramática da iniquidade social. O seu teatro é uma curiosa mistura de nostalgia e revolta, de senso piedoso do passado e denúncia do presente, de compreensão e condenação. Um teatro de alta qualidade, que exprime com nobreza as suas perplexidades e o seu inconformismo. Pessoalmente, sinto muito a morte dele, porque éramos amigos praticamente desde que ele começou a escrever, e acompanhei de perto a construção de sua grande obra".

A televisão deu à Jorge Andrade um público do tamanho do Brasil. Um público acusado de ficar alienado em frente ao televisor, indiferente às discussões importantes da vida brasileira. Ele queria fazer da telenovela um veículo importante de conscientização e auto-análise do nosso povo. Demonstrar que o gênero não era intelectualmente inferior ao teatro ou ao cinema. Um projeto ambicioso, assim como também era ambiciosa sua obra no teatro.

Falando à revista Amiga, em 1976, Andrade definiu suas ambições com o veículo:

''Para mim, a televisão não é somente o mais importante meio de comunicação dos tempos de hoje, mas o mais extraordinário para a conscientização e educação do povo. Sendo isto, acho que um trabalho como uma novela deve conscientizar e educar e não somente divertir ou, o que é pior, alienar. Quando digo conscientizar e educar, quero dizer que ela deva escolher temas e conflitos de nossa realidade imediata e conduzi-los: ao debate, à polêmica e à contestação..."

Sua primeira incursão no mundo das telenovelas foi muitíssimo bem sucedida: Os Ossos do Barão (Rede Globo - 22 horas/1973), com direção de Régis Cardoso e Gonzaga Blota, sob supervisão de Daniel Filho. Sucesso artístico, comercial e de público. A audiência correspondeu às expectativas (em média 40 pontos). Tendo Lélia Abramo (estrela da versão teatral), Gracindo Júnior, Ruth de Souza, José Wilker, Léa Garcia, Renata Sorrah, Dina Sfat, Bibi Vogel, Sandra Bréa, Leonardo Villar, Jacyra Silva, entre muitos outros grandes atores no elenco, a novela surgiu da fusão de duas peças - A Escada (1961) e Os Ossos do Barão (1963) - adaptadas ao ritmo narrativo do tradicional folhetim televisivo, em 150 capítulos.

Na trilha sonora figuravam músicas que eram a cara daquela época, tais como Tu Nella Mia Vita - Wess & Dori Ghezzi, Love's Theme - Barry White, You Make Me Feel Brand New - The Stylistics (as duas últimas seriam reaproveitadas em Celebridade) e Me And You - Dave Mc' Lean. No meio da novela, Jorge Andrade sofreu um infarto e se afastou do trabalho durante um período, sendo substituído por Bráulio Pedroso.

Egisto Ghirotto era o imigrante italiano que fez fortuna, todavia não consegue entrar para o fechado clube da alta sociedade paulistana por conta de sua origem humilde. Já os posudos e orgulhosos senhores do café - representados na novela pelo caduco Antenor, filho do Barão de Jaraguá - que detinham títulos de nobreza e quatrocentos anos de tradição embutidos no nome, não tinham mais dinheiro algum.

Jorge Andrade fotografava em sua novela uma mudança nos valores da sociedade brasileira: fortuna e tradição não necessariamente andariam juntos. Ao mesmo tempo, nenhum dos dois protagonistas estava satisfeito com o que tinha. Quem era milionário queria ser nobre. Quem era nobre não se conformava com a falta de dinheiro. Curiosa contradição.

Ghirotto, em sua busca pela nobreza, comprou absolutamente tudo que pertenceu ao Barão de Jaraguá: as terras, os objetos, até mesmo a cripta onde repousavam os seus restos mortais, os chamados "ossos do barão" do título. Mas o título de nobreza, que era o que ele queria, não conseguiu.

Essa insatisfação com a própria realidade, essa postura hipócrita de ambos os lados formava a espinha dorsal da novela. Hipocrisia esta veementemente negada e denunciada pelas novas gerações, causando conflitos e quebra de paradigmas centenários. Antenor, em sua senilidade, vivia em um mundo nostálgico, atormentado por lembranças. Acreditava que ainda que ainda era dono das terras que herdara do pai e que todos os cafezais lá contidos ainda lhe garantiriam fortuna e posição social.

Lima Duarte foi muitíssimo bem como Ghirotto, apesar de sua escalação para o papel ter sido polêmica. Otelo Zeloni, que morreria ainda em 1973, havia defendido o papel no teatro. Portanto, muitos queriam que na televisão o papel também fosse dele. Paulo Gracindo (como Antenor) e Carmem Silva (como Melica) viveram momentos engraçados, onde toda a neurastenia de Antenor era derramada, divertindo o telespectador. Gracindo, aliás, vinha do grande sucesso que havia feito na novela imediatamente anterior, O Bem Amado (Rede Globo - 22 horas/1973).

Uma moça de família tradicional namorando um negro (Gracindo Júnior, com a pele escurecida através de maquiagem). O adultério escancarado, o anacrônico racismo de Antenor, chamando sua empregada doméstica (a grande Léa Garcia) de "negra cativa". Egisto Ghirotto, louco para ter um título de nobreza, empurrava o filho (José Wilker) para o casamento com Isabel (Dina Sfat), neta de Melica e Antenor.

Temas difíceis e pouco digeríveis pelo público de novela. Exatamente por isso, Os Ossos do Barão não poderia ser exibida em outro horário. A faixa das 22 horas na Rede Globo era ocupada por histórias mais ousadas, experimentações e mudanças de rumo na teledramaturgia tradicional, mais folhetinesca. A novela foi refeita anos depois, no SBT, sem o mesmo sucesso. No elenco estavam Ana Paula Arósio, Tarcísio Filho, Juca de Oliveira, Leonardo Villar, Cleyde Yáconis, entre outros.

Essa foi a tônica do trabalho de Jorge Andrade, também em sua passagem pela televisão: fazer o espectador pensar. Beth Néspoli, de O Estado de São Paulo, escreveu certa vez:

“Jorge Andrade pode ser comparado a Nélson Rodrigues pela dimensão de sua dramaturgia, ainda que esteja longe de despertar nos diretores brasileiros o mesmo interesse que o dramaturgo carioca”.

Uma pena, pois Andrade abordou como nenhum outro a desordenada passagem do Brasil rural para o urbano e, embora longe de fazer um teatro de tese, criou personagens inseridos na história. Personagens que não podem ser compreendidos sem levar-se em conta a um só tempo aspectos históricos, sociais e psicológicos, daí seu poder de iluminar a formação do País e, em conseqüência, nosso presente.

Estou postando um trecho de uma das mais conhecidas peças de Jorge Andrade, um de nossos maiores dramaturgos, de quem sou fã incondicional. Quem sabe, ao ler o que estou postando aí embaixo, outras pessoas se tornem admiradoras de seu trabalho e possam me ajudar a preservar a memória deste homem fantástico.
Com vocês, A MORATÓRIA.


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Moratória: dilatação de prazo concedida pelo credor ao devolver para o pagamento de uma dívida.

Conforme brilhante resumo de Célia A. N. Passoni da Editora Núcleo, comenta a professora que a peça A Moratória constitui-se em três atos, tendo o cenário dividido em dois planos. Em um, uma sala espaçosa de uma antiga e tradicional fazenda de café; em outro, uma sala modesta mobiliada onde se vê, em primeiro plano, uma máquina de costura. É através desses dois cenários que o autor consegue fazer o presente e o passado próximo. O espectador, em um mesmo instante, através da mudança de planos, entra em contato com duas realidades distintas, ligada somente pelas personagens. Para efeito do resultado, a estória será narrada linearmente.

Quim (Joaquim) é fazendeiro de café, afeiçoado a terra, mas acaba sendo levado à ruína, por maus negócios. Tem setenta anos e representa o orgulho de um nome, já sem encontrar respaldo entre os cidadãos de uma cidade que está transformada com a presença de elementos estranhos à casta tradicional. Diz Joaquim: "Não sei como, minha filha, mas de repente, senti como se estivesse só naquela cidade. Parecia que todas as portas estavam fechadas para mim. Eu não conhecia mais ninguém. Percebia que atrás das janelas todos me olhavam e... ninguém... ninguém..." Mergulhado em sua solidão, nutrido pela esperança de recuperação, só encontra amparo na família. A mulher Helena é a mais corajosa, soube enfrentar melhor a situação, e a filha Lucília tornou-se o arrimo da família, agora vivendo dos proventos de sua costura, uma vez que o irmão, Marcelo, não se adapta a nenhum emprego.

Fora da família estão Olímpio, advogado, filho do rival político de Quim, mas apaixonado Poe Lucília. Elvira, irmã de Quim, mulher rica e "caridosa" que entrega café e outras coisas que vêm da fazenda em troca das costuras "grátis" da sobrinha. Não tem filhos e vive envolvida com a assistência dada a um asilo. Nesse pequeno universo, as personagens vão sendo colocadas à mercê de um destino cruel. Quim, em torno do qual a história gira, alimenta uma esperança de retornar à fazenda, que foi à praça, para saldar as dívidas. A crise do café não permitiu a venda, a florada não foi boa; a chuva tardou, o governo não fixou um teto mínimo para o café, não há dinheiro. Só resta a esperança de poder recuperar a fazenda, a esperança de uma moratória que todos sabem não vir.

A obra de Jorge Andrade constitui um ato de reflexão sobre a realidade paulista em seus aspectos sociais, morais e psicológicos. O tema da decadência dos latifúndios cafeeiro representa o fim de toda uma classe patriarcal e semifeudal de aristocratas sucumbidos à crise econômica de 1929 e a nova ordem social imposta por Vargas em 1930. ao mesmo tempo, focaliza em seu interior o conflito de gerações, o conflito de valores tradicionais em uma sociedade que vive a rápida mudança provocada pelo êxodo rural, pelo dilatamento das cidades e pelas mudanças das elites.

Marcelo é o filho desesperançado, inadaptado, aquele que vive uma outra realidade que na a do pai, aquele que é capaz de proferir palavras rudes e no entanto, verdadeiras, apontando a terrível realidade: "O senhor finge não perceber que não fazemos mais parte de nada, que nosso mundo está irremediavelmente destruído... As regras para viver são outras, regras que não compreendemos nem aceitamos... tudo agora é diferente, tudo mudou. Só nós é que não. Estamos aqui morrendo lentamente..."

Lucília é filha solteirona que vê seu casamento com Olímpio frustrado pelo autoritarismo paterno. Não se entrega aos sonhos e às esperanças do pai, que acha poder reaver a fazenda. É ela que, com força e convicção, recupera a dignidade da família, costurando furiosamente. É ela que procura lutar pela realidade bruta, protegendo o pai contra as intempéries:

"Se a senhora (Elvira) merecesse respeito, teria tido um pouco de amor por seu irmão, piedade ao menos. Gostaria que tivesse assistido à chegada deles, quando vieram da fazenda. Só aí poderia compreender até que ponto sofreram! Com o relógio, os quadros e esse... esse galho de jabuticabeira nas mãos... pareciam duas crianças assustadas, com medo de serem repreendidas. Através de cada gesto, de cada olhar, havia um pedido de perdão, como se eu... eu pudesse censurá-los em alguma coisa. Egoísta! A senhora é uma mulher má. Papai é mesmo de boa-fé, tem bom coração, caso contrário teria posto à senhora daqui para fora. O que eles sofreram, você e tio Augusto hão de pagar."

Com simplicidade, Jorge Andrade vai chegando ao clímax da peça, a hora da revelação e, consequentemente, a hora em que Joaquim se depara com a verdade / realidade, que nós, espectadores, conhecemos desde o primeiro momento. É pujante a dor de homem e a ela estamos irmanados pela indescritível capacidade da arte de fazer o tempo / espaço identificar-se com outro espaço / tempo do espectador.

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(Joaquim volta à sala no Segundo Plano e pega o galho da jabuticabeira que havia esquecido em cima da mesa. Torna a sair, procurando não olhar nada. Depois que Joaquim sai, as luzes do Segundo Plano vão diminuindo pouco a pouco até a sala ficar escura.)


PRIMEIRO PLANO


Lucília: (Primeiro Plano) Com certeza, desencontramos
Helena: Procurei o Quim e não consegui encontrar.
Lucília: Deve estar com o Olímpio.
Helena: Fui ao empório onde ele costumava ir, à igreja, a toda parte!
Lucília: A senhora não devia andar assim.
Helena: Se ele pelo menos não fosse tão violento.
Lucília: Precisamos deixar o papai protestar à vontade, e ficar quietas. É um direito que ele tem. Não pense mais nisto.
Helena: (Aflita) Você sabe como é o pai, Lucília! Como não hei de pensar? Lucília: Não vai acontecer nada, mamãe. Acalme-se.
Helena: Ele já não tem idade para enfrentar essas coisas
Lucília: Mais uma razão para nos mantermos calmas. (Impaciente) Não podemos se descontrolar. Assim ele não sofrerá tanto.
(Volta á censura)
Helena: (Olhando os objetos em cima da mesa) Não seria melhor guardar tudo isto? Lucília: Por quê? Não foi ele mesmo quem pôs aí?
Helena: Foi, mas agora... pode ser que...
Lucília: Ele terá que ver um dia; é preferível que veja de uma vez. (Pausa)
Helena: Meu Deus! por que é que demoram tanto?!
Lucília: Mamãe! Tenha calma.
Helena: (Entregando-se ao desespero) Não agüento mais. Não agüento mais, minha filha.
Lucília: (Abraça Helena) Não se preocupe. O Olímpio saberá dar a notícia.
Helena: (Aflita) Preferia... preferia...
Lucília: O quê? Diga, mamãe.
Helena: Gostaria que o Olímpio mentisse.
Lucília: Não! Chega! Vamos enfrentar de uma vez a realidade.
Helena: Tenho medo, Lucília!
Lucília: Precisamos aceitar e não pensar mais nisto.
Helena: Uma pessoa como seu pai não vive sem esperança. E era a única coisa que lhe restava.
Lucília: (Perde a paciência) Mamãe! Não fique pensando nisto, pelo amor de Deus!
Helena: Não consigo.
Lucília: Papai é um homem forte.
Helena: Ele sempre desejou morrer no meio do campo, como o finado Martiniano, e agora...!
Lucília: Onde terá ido? A senhora foi ao ponto das jardineiras? Ele vai lá todos os dias.
Helena: Você também tem medo, minha filha?
Lucília: (Controla-se) Não. Ele gosta de ver as jardineiras que chegam e partem para as fazendas.
Helena: Ele estava lá, mas... (Pára e fica muito excitada) Lucília: (Temerosa) Que foi, mãe?
Helena: Chegaram!
Lucília: Por favor acalme-se.
Helena: Mãe de Deus, rogai por nós!
Marcelo: (Voz) sente-se papai. Vou chamar a mamãe.
Joaquim: (Voz) Não.
(Ouve-se o barulho de algumas coisas que cai no chão. Lucília fica imóvel, tesa, olhando para o corredor. Percebe-se que Helena continua rezando. Joaquim aparece no corredor, pára e fica com os olhos presos em Helena. Faz um gesto como se pedisse desculpa; há nele uma angústia inexprimível.) Lucília: (Amargurada) Papai!
Helena: Quim! (Joaquim vai até a mesa e encosta-se.)
Lucília: Sente-se papai.
Helena: Quim, meu velho! Que fizeram com você?
Lucília: (Procurando se conter) Papai! (Marcelo e Olímpio aparecem no corredor)
Helena: Sente-se, Quim. Não quer se sentar?
Joaquim: (Tentando ser violento) Por que é que todos querem que eu me sente? Helena: Por nada, nada!(Joaquim, depois de pegar um trapo na mesa, senta-se, lentamente. Pausa longa. Joaquim começa a desfiar o trapo.)
Lucília: (Avança na direção do pai) Não! Isso não! Papai! Proteste, grite, fale alguma coisa. Não fique assim! Não fique assim, pelo amor de Deus!
Helena: Lucília!
Lucília: É isso mesmo. Proteste. Proteste, papai. O senhor tem direito, nós temos esse direito. As terras são nossas, sempre foram nossas. Ninguém pode nos tomar. Papai! Ainda há esperança, daremos um jeito; é preciso que o senhor não aceite, nós não podemos aceitar.
Olímpio: (Tente segurar Lucília) Lucília!
Lucília: (Repele Olímpio) deixe-me.
Helena: Minha filha respeite o sofrimento de seu pai.
Lucília: Não! Não quero ver meu pai assim. Não quero, não quero. Deve haver um jeito.
Olímpio! Diga que há. Minta. É preciso que você minta!
Olímpio: Mentir como, Lucília?
Lucília: Não quero que meu pai fique sem esperança. Não quero. (Bate com as mãos no peito de Olímpio) Não quero! Não... (Lucília caí sentada à máquina, ainda repetindo "NÃO". Pouco a pouco, começa a soluçar.)
Joaquim: (Olha para Lucília) Eu... eu não sofro mais, não sofro mais, minha filha. Não precisa ter medo. Eu... eu... (Lucília não resiste mais e começa a soluçar fortemente. Todo seu corpo é sacudido pela explosão do desespero e ela se agarra em Olímpio. Olímpio leve-a para fora da sala. Helena caminha lentamente e vai ficar atrás da cadeira de Joaquim; põe a mão em seu ombro. Marcelo senta-se no banco.)
Joaquim: (Subitamente aflito) Helena! E as minhas jabuticabeiras? Helena: Não pense, Quim, não pense mais nisto. Não faltará chuva. Joaquim: (Pausa) Em que mês estamos?
Marcelo: Em abril.
Joaquim: Abril! (Pausa) O café está sendo arruado!

(As luzes vão abaixando lentamente)
Marcelo: Já não se ouve o canto das cigarras!
Joaquim: O feijão da seca começa a soltar vagens!
Helena: Os que plantaram... vão começar a colher!

(As vozes se transformam num murmúrio e as luzes apagam definitivamente.)
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JOSÉ VITOR RACK

sábado, 12 de janeiro de 2008

CABIDES COM CABELO

Há alguma coisa mais anti-feminina que modelo de passarela? Clarice Lispector dizia que modelos de passarela eram desidratadas, feitas de pó.

Não estou falando da Gisele Bündchen, que faz sucesso justamente por ter bunda e peito. Falo dessas Twiggy dos anos 2000, esquálidos cabides de cabelo comprido e pele cor de anemia profunda.

Aliás, o próprio advento dos desfiles de moda como sendo eventos hype, cobertos exaustivamente pela mídia e glamourizados ao extremo, é algo que não me parece coisa de mulher, realmente.

Toda a estética e os valores impregnados naquele show de frufrus e babados exprime o triunfo da visão gay de mundo aplicada à moda. Em sua grande maioria, os estilistas gays mostram sua coleção a jornalistas gays sentados na primeira fila que, batendo o cabelo, mandam suas matérias via Internet para redações as mais diversas. Dias depois, as revistas para as quais os jornalistas gays trabalham estarão em todos os salões de cabeleireiros gays do país onde, finalmente, as mulheres verão qual é o último grito do Fashion Rio ou do São Paulo Fashion Week.

Não se trata de nenhum tipo de preconceito, pelo amor de Deus. É apenas uma observação pertinente. E eu acho que tem de ser assim mesmo.

Imaginem estilistas hétero, em sua maioria. O teste do sofá seria prática muito mais comum do que é hoje. Só haveria shortinhos e minissaias. As modelos? Viviane Araújo, Scheila Carvalho, Juliana Paes... Até Gisele Bündchen estaria na miséria, decadente.

A primeira fila dos desfiles mais pareceria geral do Maracanã. As revistas de moda seriam tão disputadas quanto uma Playboy. Nos botecos, discussões acaloradas sobre a última coleção. As mulheres, acuadas e sem referências, só andariam de calça jeans e camiseta. Nem ao cabeleireiro iriam mais, com medo de assédio sexual entre chapinhas e laquês.

Não daria certo. É melhor deixar os gays cuidarem disso mesmo.

Afinal, onde se ganha o pão não se come a carne.
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JOSÉ VITOR RACK

sexta-feira, 11 de janeiro de 2008

GILBERTO BRAGA E SEU ESTILO 2

Continuando...

A polêmica é uma das maiores aliadas deste carioca na construção das sinopses que, aprovadas, transformam-se em novelas com ares de mania nacional. Ele não é pedagógico, não é panfletário. É um homem comum. Politicamente incorreto como qualquer pessoa normal.

Ele escreve melodrama com objetividade e sem pudores. Permite-se a ambigüidade. É um autor de obra arredondada, passando longe dos chapados novelistas que só entendem alto e baixo, claro e escuro, bom e ruim.

Gilberto Braga escreveu com Aguinaldo Silva e Leonor Bassères a novela mais emblemática dos anos 1980, uma marco de nossa teledramaturgia e unanimidade nacional: VALE TUDO. O refrão da música de Cazuza, brilhantemente interpretada por Gal Costa, ficou na cabeça de todos. É usado em larga escala até hoje, vinte anos depois da novela, e parecia querer resumir as intenções dele ao escrever a história de Raquel, Ivan e Maria de Fátima:

BRASIL, MOSTRA TUA CARA!

Sim, o Brasil mostrou sua cara. No oportunismo de César (Carlos Alberto Riccelli), na ganância de Maria de Fátima (Glória Pires), na garra de Raquel (Regina Duarte), enfim, em cada um dos personagens da novela estava impressa uma das múltiplas facetas do povo brasileiro.

A novela parecia escrita por um sociólogo, tal a pertinência, atualidade e abrangência dos assuntos abordados. A Nova República se desmantelava diante dos olhos do povo e o sentimento geral era de descrença, desesperança. Mas pouco se falava disso. Quanto mais retratar isso numa telenovela, açucarado momento de lazer da dona de casa.

Em VALE TUDO, Gilberto criou duas marcas que fazem parte de sua teledramaturgia até hoje: a crítica social e a habilidade na utilização do clichê “Quem matou Fulano de Tal?”.

O jeitinho brasileiro de resolver as coisas, na base da mutreta. A corrupção escancarada, a dificuldade de manter-se íntegro frente a dificuldades impostas pelo mundo contemporâneo. Tudo isso foi dissecado em suas novelas seguintes, baseado na experiência bem sucedida em VALE TUDO.


Em PÁTRIA MINHA, Alice (Cláudia Abreu) via-se impelida a decidir entre fazer o que é certo ou ceder à chantagem e à corrupção, representadas nesse embate pelo personagem Raul (Tarcísio Meira). CELEBRIDADE denunciava a clara decisão de muitas pessoas em fazer o que for preciso para subirem os degraus da fama, vencendo na vida conforme o modelo americano.



Ainda influenciado pelo sucesso estrondoso do “Quem matou Odete Roitman?”, Gilberto adotou a mesma tática em CELEBRIDADE e PARAÍSO TROPICAL, com relativo êxito. Questiona-se a obviedade na escolha dos assassinos. Mas quem apostaria no óbvio, frente a outros novelistas que sempre apelam para assassinos insuspeitos, muitas vezes quebrando o encanto com uma boa dose de incoerência? Laura e Olavo eram escolhas óbvias, concordo. Mas nem um pouco incoerentes.

Nesse processo de imbecilização da TV, observado dos anos 1990 pra cá, um dos poucos novelistas que se mantiveram íntegros e fieis à sua essência original, aquela que explodiu em DANCIN DAYS, foi Gilberto Braga.

Por essas e por outras, Giba merece todo o nosso respeito.

E viva o estilo! Que cada um encontre o seu.

JOSÉ VITOR RACK
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quinta-feira, 10 de janeiro de 2008

GILBERTO BRAGA E SEU ESTILO





A telenovela brasileira mostra-se como sendo um produto diferenciado quando comparado aos similares de outros países. Praticamente todos os outros países produtores de novelas gastam pouco em produção, não contratam os melhores atores disponíveis no mercado e tampouco inovam nas tramas.

Dentro de um produto já vencedor e diferenciado, Gilberto Braga conseguiu mais um nível de exclusividade para as telenovelas que escreve. Aquela coisa tão intangível e desejável a um bom escritor: estilo.

Novelas escritas por Gilberto Braga são claramente identificáveis desde as primeiras cenas. E não se trata apenas de marcações e rubricas que se repetem ou de preferências obsessivas. Trata-se de um subtexto riquíssimo, uma assinatura virtual que, mesmo quando não compreende nada de teledramaturgia a nível teórico, qualquer telespectador minimamente atento consegue sentir com clareza.

Gilberto foi um dos primeiros teledramaturgos brasileiros a construir novelas anti-maniqueístas, pelo menos o quanto for possível sem perder a essência do romance de folhetim. Em suas novelas os vilões podem ser mais queridos pelo público que os mocinhos.




Exemplos claros disso são os personagens Olavo (Wagner Moura) e Felipe Barreto (Antônio Fagundes) que engoliram sem dó nem piedade os protagonistas de PARAÍSO TROPICAL e O DONO DO MUNDO. Ambos tinham mais carisma e chamavam mais a atenção do público que os insossos Daniel (Fábio Assunção) e Márcia (Malu Mader). E dizer que isso se deve ao melhor desempenho destes atores frente aos que interpretaram mocinhos não é verdade. A verde é que Gilberto escreve com mais tesão os personagens com essa dubiedade. É de sua natureza.

Esse anti-maniqueísmo teve seu ápice em VALE TUDO, novela escrita em 1988 onde dois dos grandes vilões da novela terminaram impunes e com um sorriso nos lábios: Maria de Fátima (Glória Pires), casada com um príncipe europeu, e Marco Aurélio (Reginaldo Faria), sumindo num jatinho e dando a mais famosa banana da história deste país.

Outra exclusividade do autor: ninguém escreve tão bem personagens da alta sociedade carioca (e da brasileira, por que não?) como Gilberto Braga. Seus ricaços passeiam pelas altas rodas com a desenvoltura de uma Ana Botafogo no Municipal.

Apenas Bráulio Pedroso poderia gabar-se de algo parecido, se vivo estivesse, com a ressalva que o trabalho do escritor paulista tinha um enfoque diferente, satírico. Gilberto mostra, inclusive, a pouca dignidade que os muito ricos demonstram quando em decadência, vide a Stella (Tônia Carrero) de ÁGUA VIVA, fingindo ser o que não era mais.

Continua amanhã.

JOSÉ VITOR RACK

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quarta-feira, 9 de janeiro de 2008

Do ato de escrever

1.O ato da escrita é prazeroso. Mas nem por isso deixa de ser difícil fazê-lo. E, às vezes um tanto pior, assumir.

2.Mesa de bar. Namorada, familiares, amigos, conhecidos e amigos dos conhecidos. Conversa vai e conversa vem. A pergunta inevitável surge. Não dá tempo de você correr pro banheiro simulando ânsia de vômito ou uma caganeira repentina. Você ouviu e será obrigado a responder. “O que você faz da vida?”. “Hã?”. “Você trabalha em que?”. Pergunta difícil de responder.

3.Você começa a pensar que isso não tem nada a ver. Afinal, qual a importância do que você faz da vida? A pessoa à sua frente, provavelmente alguém com uma profissão “normal” tipo advogado, economista, engenheiro, arquiteto, bancário ou eletricista, não está muito interessado no que você faz ou deixa de fazer. Ele quer, simplesmente, “puxar papo”. E é aí que está o problema.

4.Se as pessoas fossem dotadas de vontade de conhecer o próximo, seria mais fácil tentar explicar o porquê de muitas coisas. Mas como na maioria das vezes elas só querem “puxar papo”, aí meu amigo, a coisa complica. Elas vão “puxar papo” até chegar na sua infância e tentarão descobrir por qual motivo você decidiu virar escritor. Normalmente elas concluem também que tal motivo foi originalmente motivado por causa de algum desvio mental, pedofilia paterna ou desnutrição.

5.“Eu escrevo”. Você responde em voz baixa. “O quê?”. “Eu escrevo”, agora um pouco mais alto. “Ah, que legal”. “É”. “Escreve o que?”. Caramba, não podia ser pior. Agora a mesa toda está prestando atenção na conversa. A sua vontade é de responder que você escreve bula de remédio ou atestado de óbito. Mas você tenta manter o nível. Ficaria feio eles pensarem que você além de vagabundo (afinal escrever não é profissão) é grosseiro.

6.Veja bem. Vamos recorrer às pessoas mais velhas, afinal elas são experientes. Bom, pelo menos é o que nos dizem. “Vó, escrever é profissão?”. “Só se você ganhar muito dinheiro”. Outro. “Vô, escrever é profissão?”. “Isso é coisa de viadinho sensível. Escritor fica com a mão calejada? Com o corpo forte? Claro que não é profissão, é passatempo”.

7.Mas na mesa de bar você responde que já publicou alguns textos, escreveu uns roteiros e está se dedicando ao teatro. “Dramaturgo”. O incauto pergunta: “O que é isso? Alguma doença?”. A mesa toda cai às gargalhadas. Mas aí é tarde. Quem fala o que quer ouve o que não quer. “Não. Doença é burrice”. Todos se entreolham um pouco sem graça até que um diz: “Tinha que ser escritor”.

8.Daí vem a fama. Sabe aquela fama? Que todo escritor é arrogante, prepotente, metido a sebo, anti-social e pseudo-intelectual?
9.Mas numa boa. Quem se importa?

Thiago Duran Nogueira
thiagoduran@terra.com.br

Thiago Duran Nogueira nasceu em São Paulo em fevereiro de 1983. É dramaturgo, ator e roteirista. Além de trabalhar com jornalismo e produção teatral.

terça-feira, 8 de janeiro de 2008

UMA DOR DESNECESSÁRIA

Daniella Perez.

Lembro com clareza, como se fosse hoje.

Férias de verão, estávamos todos hospedados na casa da minha irmã aqui em Rio Preto. Tinha dormido tarde na noite anterior, fiquei vendo uns vídeos que meu cunhado trouxe do centro. Já era meio tarde, estava esparramado na cama no chão feita por minha irmã.

Minha mãe me acorda aos berros:

- A YASMIN MORREU! A YASMIN MORREU!

Demorou pra cair a ficha e eu me lembrar da Yasmin da novela das oito.

Tudo muito chocante, muito estúpido, muito torpe. O clima na cidade era horrível, as pessoas tristes, chocadas com o acontecimento. Lembro que muitos culpavam a violência urbana do Rio de Janeiro, ainda sem saber que um colega de elenco tinha sido o autor daquela barbaridade toda.

Um colega na comunidade Folhetins, do Orkut, disse muito bem e eu repito: Glória Perez é uma mãe coragem.

É uma mulher que tem a extraordinária capacidade de se reinventar, de se adaptar às adversidades da vida. Perder dois filhos (sim, pra quem não sabe, recentemente Glória perdeu outro filho, este não por meios violentos) e seguir na ativa, de cabeça erguida, dando a cara a tapa e lutando por justiça... Poucos têm essa capacidade.

Falo da Glória não apenas por se tratar da mãe da Dani. Ela é a autora da telenovela AMÉRICA, aquela que mostrou o mundo dos rodeios para o Brasil através de personagens como Tião Higino e Carreirinha.

Por conta de sua opção artística, Glória foi ameaçada de morte e perseguida na Internet por zoonazistas, gente que usa a bandeira do vegetarianismo e da defesa dos direitos dos animais como desculpa para dar vazão ao lado podre de sua personalidade. E o pior: usaram fotos de sua filha morta a tesouradas, jogada num matagal, como instrumento de intimidação e agressão injustificada.

Ela encarou o problema de frente e levou a novela adiante, sem ceder às chantagens e tentativas de censura. Corajosa como fora no episódio da morte de sua filha, quando um cardeal da Igreja Católica afirmou ao Jornal do Brasil que a morte violenta de sua filha era reflexo da violência das telenovelas que ela e outros autores produziam:

"Quem matou, há dias, uma jovem atriz? Seria ingenuidade não indiciar e não mandar ao banco dos réus uma co-autora: a TV brasileira. A novela das 8. E - sinto ter de dizê-lo - a própria novela ‘De Corpo e Alma’".

Vejam a declaração que ela deu à VEJA em 1993 sobre isso:

"De Corpo e Alma não é violenta. Qual a violência da novela? Acho uma coisa completamente absurda querer resolver, a nível ficcional, os problemas do mundo concreto. Não se pode admitir, por exemplo, que no século XIX Marx, em vez de se dedicar a fazer a revolução, fosse atirar contra Balzac porque ele pintou o capitalismo nas obras dele. Me interessa o mundo concreto. A morte da minha filha é concreta."

Tem mais:

"A gente chegou ao local, aquele lugar horroroso, escuro, ermo, e eu vi o carro dela. Mas só acreditei quando vi o tênis que ela usava. Porque o corpo estava atrás de uma moita. Estava iluminado pelo farol do carro, e a primeira coisa que se via era o tênis. Aí você vai tendo aquela visão, você vai subindo do tênis para o rosto. É difícil dizer a sensação que se tem. É a coisa mais bruta da sua vida. Quando vi a Dani morta, pensei na hora em que ela nasceu. Eu a abracei como se recolhesse a minha filha para dentro de mim mesma. Abracei o corpo dela para guardá-la, detalhe por detalhe, não na minha mente, mas nas minhas entranhas. Era como se eu quisesse colocá-la dentro de mim de novo. É como a música do Chico Buarque: a saudade é o revés de um parto."

Um já falecido ex-diretor da TV Globo saiu-se com essa:

"O que me preocupa nisso tudo é a obsessão de sucesso da Glória Perez, que queria fazer da filha uma estrela e a colocou em contato com um psicopata. A mãe puxava a brasa para a filha na novela. O garoto devia cercar a menina porque ela era duplamente importante: era bonita e tinha poder."

É o cúmulo da insensibilidade e da falta de respeito.

Perceba que, além da dor de perder um filho, houveram outras dores que vieram junto com esta maior que, após breve análise, mostram-se completamente desnecessárias. E evitáveis.

Já é doloroso enterrar um ente querido. Imaginem só como seria ainda ter de conviver com a idéia de impunidade. Saber que, enquanto o que resta de seu filho são ossos ou lembranças, o assassino pode estar curtindo o verão em qualquer praia de nosso litoral, gozando de plena saúde e dando vivas ao nosso código penal frouxo, decadente, cego de nascença.

Crimes passionais existem em qualquer sociedade. Gente louca ou má mesmo, existe em qualquer lugar, portanto não dá pra dizer que Daniella Perez ou qualquer outra vítima da violência não seria morto se as leis fossem outras.

Mas é óbvio que, com leis mais justas (não se trata de severidade e sim de justiça!!!), as famílias não se sentiriam tão desamparadas, tão abandonadas pela pátria que juraram amar e defender desde crianças. Essa dor é desnecessária, repito.

Meu mais sincero respeito pela Glória, pelo Gazolla e por toda a família. E uma saudade danada daquela menina que sambava na ponta do pé, linda e breve como toda a juventude do mundo.

Dirijo meu respeito ainda aos pais de João Hélio. Aos familiares do menino de Bauru, espancado até a morte em casa por policiais que suspeitavam que ele tivesse cometido um furto. Um abraço ao pai de Ives Ota, que teve a elevação espiritual de perdoar o assassino de seu pequeno filho. À mãe da menina brasiliense assassinada pelo caseiro. Muita força aos parentes de Edson Neris, espancado até a morte por neonazistas por ser gay.


Pensando melhor... Você sabe quem foi Edson Neris? E Ives Ota? Já se esqueceu de João Hélio?

Se esses nomes e fatos que eu relatei acima não lhe disseram nada, vale a pena uma busca no
Google. Aja. Informe-se. Ponha-se um minuto que seja no lugar dessas pessoas. Pense em seus amigos, em seus filhos, seus irmãos, seus pais.

E lute conosco. Devemos honrar nossos mortos e proteger nossos vivos.

Tendo Glória Perez como exemplo, comme il fault.


JOSÉ VITOR RACK
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segunda-feira, 7 de janeiro de 2008

GRINGOS

Tempos atrás o Atlético Paranaense contratou o alemão Lothar Matthäus para ser técnico do time. O acordo foi rapidamente rompido por ele devido a problemas familiares e nem pudemos avaliar direito como seria uma experiência como esta.

Eu sempre achei que seria uma boa para a Seleção Brasileira ter um técnico estrangeiro.

Uma visão tática diferente, uma filosofia de trabalho mais adequada à que nossos principais jogadores estão acostumados nas ligas européias, enfim. Seria uma experiência enriquecedora para ambas as partes, creio eu.

Imaginem Cruyff treinando Kaká. José Mourinho orientando o posicionamento de Ronaldinho Gaúcho. Bobby Charlton dando dicas para a nossa zaga... Como seria o relacionamento de Klinsmann com a imprensa brasileira? Seguiria ele morando nos Estados Unidos? E Fábio Capello? Ficaria fã da nossa feijoada?

Muitos técnicos gringos passaram por aqui. José Poy, Darío Pereyra, Daniel Passarela, Filpo Nunes, Roberto Rojas, entre outros. O Flamengo teve um técnico húngaro, se não me engano nos anos 70. O Bragantino teve um treinador croata na década de 90.

O intercâmbio de culturas é salutar em qualquer aspecto da existência humana, incluindo-se aí o esporte. E isso não seria demérito para a mão de obra nacional, não. Dentro de campo essa integração se dá de maneira muito mais democrática e há muito tempo.

São-paulinos idolatram os uruguaios Pedro Rocha e Diego Lugano. O chileno Figueroa é o maior zagueiro da história do Internacional. Nenhum gremista se esquece de Arce e Rivarola, paraguaios de fibra e bom futebol. Os argentinos Doval, Tevez e Mancuso fizeram história e deixaram saudades nos torcedores de Flamengo, Corinthians e Palmeiras, respectivamente.

O colombiano Rincón agradou a palmeirenses, santistas e corinthianos, fato raro! Gamarra, paraguaio de garra e técnica, fez felizes colorados, corinthianos, flamenguistas e palmeirenses. Que torcedor do Fluminense se esquece de Romerito? Petkovic, esse europeu de estilo bem brasileiro também passou por vários clubes e sempre fez sucesso. O hoje corinthiano Acosta era o queridinho dos fanáticos pelo Náutico.

Sim, houve jogadores gringos que não deram certo por aqui.
No São Paulo, os chilenos Sierra e Mendoza fizeram feio. O americano Cobi Jones não disse a que veio no Vasco. O colombiano Lozano não substituiu Rincón à altura no Palmeiras, também frustrado pelo mau futebol do italiano Marco Ósio. Mas esses maus exemplos não invalidam a iniciativa.

As fronteiras estão caindo mais rápido a cada dia e em várias áreas. O futebol está acompanhando essa evolução dentro das quatro linhas. Está na hora de internacionalizar nossos bancos de reservas.


JOSÉ VITOR RACK
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domingo, 6 de janeiro de 2008

E QUEM DISSE QUE CAIPIRA É ATRASADO?



Já ouviu falar em Sud Menucci?

Trata-se de uma cidade com cerca de 8.000 habitantes a cerca de 650 km de distância da capital paulista, relativamente próxima a São José do Rio Preto, cidade onde moro.

Não faço a menor idéia de qual seja a origem desse nome exótico, mas o fato é que Sud Menucci é uma cidade completamente inserida no mundo digital, muito embora, paradoxalmente, esteja completamente excluída do mundo real.

O prefeito da cidade mandou instalar em 2002 um grande serviço de internet via rádio em banda larga, gratuito e ilimitado (sem limitação de conteúdo ou restrição de horário). Qualquer cidadão sud-menucense (inventei esse gentílico agora) que se disponha a instalar a antena WiFi em sua casa (custo de cerca de trezentos reais), tem uma janela aberta para o mundo de graça.

A despesa da prefeitura é muito pequena comparada aos benefícios de tal atitude. Uma cidade pequena, onde seus jovens sempre imaginavam estratégias rápidas de ganhar dinheiro e sumir dali, de repente ganha horizontes, fôlego novo.

Proporcionalmente, um cidadão de Sud Menucci está mais preparado para enfrentar o mundo digital e seus desafios do que o paulistano, o porto alegrense ou o carioca, por exemplo, que gastam muito mais para ter o mesmo acesso à informação.

O papel do estado na vida do cidadão mudou e faz tempo, todo mundo sabe e se lembra bem das privatizações do FHC... É de iniciativas assim que o novo Estado brasileiro precisa!

Já que Vale do Rio Doce, Embratel e tantas outras já foram para o ralo, está na hora da criação da INTERNETBRAS, unindo o Brasil em nome do acesso ao futuro.

Eu apóio!



JOSÉ VITOR RACK

sábado, 5 de janeiro de 2008

O HUMOR DE RHAOUL NETO


CONHEÇA O TRABALHO DO RHAOUL
http://www.raulkuadrinhos.blogspot.com/

quinta-feira, 3 de janeiro de 2008

Dos cinemas que já foram


Nasci em uma cidade do interior de Minas chamada Ponte Nova, que é, aliás, de onde agora escrevo esse texto. Aqui é daquelas cidades comuns, onde havia uma pracinha, com velhos assentados nos bancos, um pipoqueiro que desapareceu e, dei sorte, alguns cinemas. Sou da geração em que havia cinemas na cidade, cheguei a freqüentar dois em minha infância, com toda uma sorte de matinês com filmes dos Trapalhões (e filas), blockbusters para adolescentes americanos, como Os Goonies e Gremlins, muito Bruce Lee e seus desdobramentos, enfim: cinema. Como eu já tinha dito havia é porque, como todos os cinemas, os daqui fecharam.

Um virou supermercado, depois igreja evangélica (sempre elas), agora está uma construção abandonada. O outro virou fábrica de roupas. Tenho notícia de um terceiro cinema em minha cidade, mas desse não tenho memória, portanto para mim nunca existiu. É interessante notar o processo de decadência de um cinema: o último deles, resistente até o fim, ficou por meses exibindo os mesmos filmes, alternando os cartazes com certa periodicidade, para dar uma sensação de mudança, até cerrar as portas de vez. Não sei mesmo que fim levou os projetores, rolos, maquinários. Nem as cadeiras duras de madeira.

Ao contrário de uma cidade grande, e já chego nela, os cinemas daqui não foram trocados por telas em shopping centers. Simplesmente engolidos pela evolução, foram talvez substituídos pelo vídeo cassete, pois, também, como toda cidade do interior, houve aqui onde morei uma explosão de locadoras. Quando me mudei para Belo Horizonte, em 1992, o cinema mais perto fica(va) a cerca de 1h de viagem, em outra cidade.

Foi em Belo Horizonte que presenciei a migração da classe média para os shopping centers e suas luzes. Como sempre viajei muito (e sempre gostei de cinema), freqüentei e vi fechar praticamente todas as salas da cidade: Acaiaca, Pathé, Royal, Palladium. Todos cedendo espaço para as igrejas evangélicas (sempre elas) ou simplesmente cerrando as portas e deixando vazio um endereço.

Foi no Cine Acaiaca que, ainda criança, assisti à História sem Fim com meus primos, o que me deixa uma recordação de infância ainda grande, daquelas memórias de um momento simples que toma dimensão extrema em nossa mente. E foi o Palladium, imenso em sua cor de salmão, com a maior tela da cidade e cadeiras para toda uma torcida de futebol, que assisti ao Titanic, vi pela primeira vez (!!) as Guerras nas Estrelas (um dia conto a história, mas Star Wars e ET só vieram fazer parte da minha vida cerca de 20 anos depois), e diversos outros, de um tempo em que o estudo era grande, o tempo era largo, e o dinheiro curto dava para pagar a meia entrada.

Em Ponte Nova fui mais vezes ao Cinema Brasil, acho. Em Belo Horizonte também existiu um Cine Brasil, no coração da cidade, mas que eu nunca fui porque uma colega do colégio disse que lá tinha um homem “que colocava o pinto para fora”. Para se ter uma idéia da data do seu fechamento, o último cartaz na fachada anunciava, até a bem pouco, a estréia do episódio um de Guerra nas Estrelas: a ameaça fantasma. Hoje passo em sua porta vários dias por semana.

E por passar na porta sei que o Cine Brasil está em obras, dizem que vai reabrir como centro cultural daqui alguns meses. Vou, com certeza, se não à estréia (que deve ser para convidados, e meu tempo disso já passou), visitar e ver como ficou. É um primeiro sinal de uma provável revitalização cultural do centro da cidade. O Palladium vai ter o mesmo destino, mas ainda deve demorar bastante. Se essa reforma trará de volta o prazer de se sair de casa para uma sessão em um cinema com tela grande, em uma edificação voltada para esse fim, não sei. É, de qualquer modo, um resgate. E mais uma opção na cidade grande. Já estou crescido o suficiente para não ter medo do homem “que colocava pinto para fora”, e espero que ele não volte. E que ressuscitem alguns dos lanterninhas, por que não?

Só é uma pena, de volta à cidade do interior, que iniciativas como essas se restrinjam aos grandes centros. Eu mesmo já pensei, por vezes, em transformar o Cinema Brasil de minha cidade em um cinema como os Usina Unibanco da vida, acho que até teria público. A idéia existe, o dinheiro não. Mas seria uma saída louvável para uma construção, além de trazer algum vislumbre de cultura em um meio ambiente onde não existe cinema, teatro ou loja de discos. Ainda é idéia, quem sabe um dia acontece? Afinal o prédio continua lá, fechadinho...


MARCELO BELICO
mbelico@gmail.com

quarta-feira, 2 de janeiro de 2008

VOCÊ CONHECE O ENIGMA DE TOSTINES?

Tostines vende mais porque é fresquinho ou é fresquinho porque vende mais? Essa pergunta lançada num comercial de televisão pode ser utilizada para tentarmos compreender duas instituições:

Hollywood é tão hipócrita porque é tucana ou os tucanos são tão hipócritas inspirados em Hollywood?

Explico: a indústria do cinema norte-americano não abre mão do politicamente correto em momento algum. O Oscar é um belíssimo exemplo disso que estou falando, ainda influenciado por um belíssimo artigo do Sérgio D’Ávila na Folha.

Os prêmios são notadamente distribuídos por questões políticas e de marketing: filmes que agradam aos republicanos, aos democratas, aos palestinos, aos judeus, aos gays, aos negros, enfim. Cada nicho de mercado recebe todo ano pelo menos uma estatueta, pode conferir.

Mesmo com esse espírito de tapinha nas costas, o Oscar de melhor filme ainda não entrou nessa, segue sem concessões. O Segredo de Brokeback Mountain não ganharia jamais o prêmio de melhor filme, nem que fosse ainda melhor do que o Ang Lee filmou. Fernanda Montenegro melhor atriz? Uma latininha metida à besta, num filme falado em português? Nem que chova canivete!

Essa mesma vibe é percebida no seio do PSDB. Hipocrisia e um visual asséptico.

CPMF pode, mas só quando eles estão governando. Mudar a regra do jogo no meio da partida, inserindo uma reeleição inexistente, pode. Mas se Lula quer um terceiro mandato, não pode. Eu também acho que não pode, três é demais. Mas qual a diferença entre as duas situações? É mudança de regra do mesmo jeito. Um Oscar para Tasso, Alckmin, FHC, Aécio, Fruet, Serra, Guerra, Dias... Hollywood é aqui.

JOSÉ VITOR RACK

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